sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Bem-vindo ao mundo do planejamento urbano

Nós cariocas, quando ouvimos falar sobre planejamento urbano, pensamos em remoção de favelas, favela-bairro, muro pra delimitar favelas... mas alguém aqui conhece algum plano para transformar o Rio pensando no futuro da cidade daqui a 20 ou 50 anos? Eu não. Aliás, pra mim favela-bairro não é planejamento urbano – é colocar um bandaid em um problema que está tão consolidado que não tem mais como ser resolvido. Já em Brisbane, é ao contrário. Aqui não se trabalha com “reação” – o negócio é prevenção, até por que a cidade não chegou ao limite de população como o Rio. Um dia vai chegar, mas até lá, a cidade estará bem preparada para aguentar esse tranco. E sabe por que? Por causa do imenso planejamento urbano que fazem agora.

Desde o início da década de 90 a região metropolitava de Brisbane é a que mais cresce na Austrália: cerca de 2,2% ao ano. Hoje a grande Brisbane tem 1 milhão e 950 mil habitantes e espera-se que em 2049 a população dobre para 4 milhões. Conheço vários Brisbanites (locais) que falam que, há 10 anos atrás, Brisbane era completamente diferente: nada abria aos domingos, quase não tinha bons restaurantes, não tinha bons shows (as grandes bandas só iam para Sydney e Melbourne) – enfim, não tinha muita coisa pra fazer, era um lugar devagar quase parando... hoje em dia a cidade que já foi conhecida por ser uma “big country town” está bombando com inúmeros restaurantes, parques, prédios modernos, e gente.

A quantidade de obras espalhadas pela cidade é absurda. Se você olhar pra Brisbane de longe, você vai ver um horizonte infestado de guindastes. A cidade está em obras. São novas avenidas, túneis, prédios, calçadas... Eu fiquei um ano no Brasil e quando voltei, encontrei várias coisas que antes não existiam: ruas que mudaram de mão, uma nova ponte no rio Brisbane, um mega ponto de ônibus perto de um grande hospital, as obras do túnel que vai atravessar a cidade super adiantadas (aliás, essa obra é monumental!), dois prédios novos no centro. Além do crescimento, me impressiona também a rapidez com que isso acontece.

Tudo isso só não vira um samba do criolo doido por um motivo: planejamento urbano. Antes de iniciar qualquer projeto, o governo faz uma baita pesquisa para entender os impactos que ele terá na cidade, nos habitantes, e na Brisbane que eles esperam pro futuro. E para juntar todos esses projetos debaixo do mesmo guarda-chuva, ontem o governo e a prefeitura lançaram um super plano de planejamento urbano em conjunto: chama-se River City Blueprint. Ele pretende entender como cada projeto, estudo e estratégia isolados da região central da cidade relacionam-se entre si. Basicamente ele é um projetão que vai fazer o link entre todos os 80 “projetinhos” em andamento nessa região.

É claro que tem gente que reclama do plano, e a reclamação é que o governo, ao invés de investir tanto em Brisbane, deveria é cuidar das cidades menores do estado de Queensland. Afinal, se houvesse empregos e prosperidade nesses lugares, o pessoal não teria que ir pra Brisbane para ter uma boa vida – ficaria por lá mesmo, nas áreas regionais (sim, por que além da imigração de estrangeiros, existe uma emigração enorme dos próprios australianos do interior para as capitais).

Mas voltando à vaca fria (ou quentíssima): o que eu acho mais legal de Brisbane é que, mesmo com esse batida cada vez mais rápida, a cidade ainda conserva um charme de cidade pequena. E esse é um dos pontos descritos no plano, que em um trecho diz assim: “But we don’t want to grow up and become just like any other city. We want to make sure the city’s infrastructure can cope with new residents, workers, students and tourists and that the services we enjoyed today are not compromised by growth. Most of all, we want to preserve the relaxed, outdoor lifestyle that is quintessentially Brisbane.”

E nós, que moramos na cidade, somos constantemente comunicados sobre o que está acontecendo. Volta e meia recebemos em casa uma carta da prefeitura contando sobre esses planos todos, eles sempre marcam uma reunião para discutir o assunto (geralmente é uma reunião por bairro), existe um acompanhamento de cada passo pelos moradores – tanto sobre as etapas da construção em si quanto sobre as finanças e despesas do projeto.

Planejamento, comunicação constante, ser ouvido, acompanhar gastos... Infelizmente, pra brasileira aqui isso é tudo muito novo. Uma pena, pois o Rio estaria tão diferente se os governantes tivessem pensado mais no futuro da cidade a longo prazo... ainda mais uma cidade maravilhosa como o Rio, que tinha tudo para ser uma das melhores cidades do mundo pra se viver. Será que ainda dá tempo?


Brisbane em 1922. Fonte: State Library of Queensland.

Essas aí embaixo eu tirei hoje no horário do almoço. São todas da Queen Street Mall, a principal rua do centro de Brisbane. Olha como tem gente na cidade...






3 comentários:

**Adriana** disse...

Que cidade linda mesmo! Vontade grande de conhecer em breve!! Beijos, Adri

Unknown disse...

Verinha,

A cada dia você se supera mais.

Esse assunto me toca muito, pois a cada dia sinto que o Rio está insuportável, principalmente, o trânsito.
No mes de dezembro o que foi lançado de imóveis por aqui!? Sem noção... E só tem as Américas...
Sorte teve você que ao sair ainda encontrou um Galeão.

Sem planejamento urbano, até poderemos perder este nosso barco...

Beijos e parabéns,
Sonia

Verinha disse...

Pois é, foi o que eu falei de "prevenção X reação". Daqui a alguns anos eles lançam um "planejamento" para resolver os problemas da Barra...

Que bom que vc está gostando do blog, assim - enquanto não vem me visitar - você fica conhecendo um pouco mais sobre a Australia!

Beijos