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sábado, 19 de junho de 2010

Africa do Sul e a Australia

(desculpe, hoje meu teclado estah sem acento)

Aproveitando o momentum Africa do Sul & Copa do Mundo, queria falar um pouco mais sobre esse pais que tem tantas diferencas e similaridades com a Australia e com o Brasil.

Como sempre, vou falar o que sei e o que vi - estive duas vezes na Africa do Sul (na Cidade do Cabo em 2007 e Johanesburgo em 2008), conheco alguns sul-africanos e, obviamente, moro na Australia o que me deu uma boa ideia de comparacao com esse seu "irmao desgarrado" de mesmos pais (os ingleses), padrasto distinto (o africano eh holandes) e "criacao" bem diferente...

Primeiro, uma ressalva para os brasileiros que moram ou que pretendem viver na Australia: da proxima vez que voce for visitar o Brasil, compre a passagem pelo outro lado do mundo, e nao via Nova Zelandia e Chile/Argentina. Lembro que a passagem custou meros 200 dolares a mais via Africa, e a experiencia valeu muito a pena - tanto que quero voltar pro continente (soh nao sei ainda quando, mas com certeza essa jornada me mostrou que a Africa deveria estar mais no mapa, na imprensa, na nossa vida).

Toda vez que faco o trajeto Brasil-Australia e vice-versa eu aproveito as paradas habituais do voo para conhecer o pais da escala. Santiago e arredores jah conheco muito bem de outros carnavais, jah que mi hermanito Beto mora por lah ha mais de 15 anos (fala Betito, taih maninho?!), mesmo assim, vejo sempre como uma oportunidade poder usar o voo para parar e conhecer um pouco mais sobre o que o Chile tem a oferecer. Nova Zelandia a mesma coisa, tanto eh que no ano passado o percurso Brasil-Australia demorou tres semanas a mais: duas no Chile (com Deserto de Atacama incluido - falei um pouco sobre lah nesses posts) e Nova Zelandia (uma semana na Ilha Sul nos mostrou os lugares mais lindos e breathtaking que pude imaginar na vida).

Ou seja, meu primeiro recado antes de comecar a falar sobre a Africa do Sul eh: aproveite essa longa viagem da Republica das Bananas pra Terra dos Cangurus, curta, e se voce for de ferias da Australia ao Brasil, nao se prenda todo tempo ao Brasil, pare no caminho, ou na ida, ou na volta, ou nos dois. Faca valer o seu dinheiro (jah que a parada seria mesmo escala e voce nao estah pagando extra por isso) e a sua vontade de conhecer o mundo. E de quebra o jet-leg inicial fica mais facil de ser digerido.

Falando da viagem em si: o percurso seria Rio-Sao Paulo-Johanesburgo-Sydney-Brisbane e vice-versa, mas quando parei em Johanesburgo, lah mesmo no aeroporto, comprei uma passagem para a Cidade do Cabo (Cape Town) que fica a cerca de 3 horas de voo ao oeste de Johanesburgo (passei quase por cima da cidade a caminho de Johanesburgo, ou seja, fui e voltei). Vale frisar que o aeroporto de Johanesburgo jah em 2007 estava cheio de posters pre-Copa do Mundo. Pois bem, no voo mesmo entre J'burg (assim carinhosamente chamada pelos locais) e Cape Town o caminho jah eh impressionante, com muitas montanhas e desertos.

Pode me chamar maluca, mas juro pra voce que neste voo que cruza a Africa do Sul fiquei olhando pra baixo quase o tempo todo pra ver se achava um elefante, uma zebra ou uma girafa pelo caminho hehe. Soh muito depois fui descobrir que um tour por um safari qualquer da vida custa carissimo, pelo menos uns 1500 dolares por 3 dias. Na epoca, minha vida de mochileira e garconete na Australia nao me permitiu tal ousadia, mas tudo bem, soh a experiencia de estar lah, naquele continente "perdido" (como pode ser chamado de perdido neh?) jah valia uma Arca de Noe inteira. Duas, tres.

A Cidade do Cabo eh uma cidade linda que me lembrou um pouco o Rio de Janeiro, com o sensacional encontro entre natureza, verde, montanha e mar. Quando saih do aeroporto lembro que vi algumas favelas, mas elas sao um pouco diferentes: cada casinha eh bem menor (descobri em um tour depois que elas sao chamadas de match boxes - caixinhas de fosforo), planas, e feitas com um material diferente, acho que zinco...

Os sinais e placas nas ruas sao escritos em Afrikaan (lingua oriunda do holandes, que chegaram por aquelas bandas em 1600 e alguma coisa) e ingles. No caminho reparei em alguns Fish 'n Chips, tao comuns na Australia, e a arquitetura inglesa, com algumas casas, pubs e hoteis bem parecidos com o que vejo em Brisbane. Verdade, sao todos da Commonwealth pensei - India, Canada, Africa do Sul, Australia, Inglaterra, Nova Zelandia e alguns outros paises, todos com colonizacao inglesa... Apesar das diferencas economicas obvias, acredito esses paises tenham muito mais em comum do que imaginamos. Confesso que, ateh fruto da minha falta de informacao, eu me surpreendi pois nao esperava encontrar um pouco da Australia na Africa do Sul fora a lingua e o fato dos dois estarem no hemisferio sul (como o Brasil).

Na minha pesquisa sobre o que tem de parecido entre a Australia e a Africa do Sul achei uma entrevista bacana de um executivo sul africano da BMW que tambem trabalhou na Australia e disse que ambos os paises tem "surprising similarities". Leia um trecho:

Clive Prevost: When most people think of Africa, and even South Africa, they probably imagine a very different society to Australia. While there certainly are many differences, there are also a surprising number of similarities.

Both countries are in the southern hemisphere, and thus relatively lacking in access to major international markets. The structure of the economies is surprisingly similar: 60-70% services, 10-15% primary industries and 10-15% manufacturing. Both are major exporters: Australia is listed in 29th place and SA in 39th place (out of 228 countries), according to one recent study. Both countries are rich in natural resources such as gold, coal, iron ore, nickel, uranium, diamonds, natural gas and other minerals specific to each country.

Legal systems in both countries are based on English common law (although South Africa has other influences as well). Both rate well for political and civil liberties, and both, of course, share a passion for sports.
Entrevista completa neste link.

Depois falo mais sobre isso, vamos voltar a viagem com algumas fotos que tirei pela Cidade do Cabo e arredores:

Como pode?


Pub/Hotel em Cape Town.

Table Mountain.


Nao eh soh o oceano que tem contrastes...

Praia no caminho entre Cape Town e o Cabo da Boa Esperanca. Tem muito pinguim por essa costa.


Cabo da Boa Esperanca: lembra das aulas de historia?

Na minha curta vigem de cinco dias a Cidade do Cabo eu conheci a ilha-prisao que o Mandela ficou preso por mais de 20 anos (Robben Island), o Cabo da Boa Esperanca, fiz um tour por umas montanhas ao lado da cidade, andei um pouco... E tenho que fazer uma ressalva nesse ultimo: algumas vezes me senti sim insegura por andar a noite por Cape Town.

Uma hora estava caminhando do meu albergue em direcao a um famoso cais da cidade cheio de bares e restaurantes, eram umas 7 da noite e estava comecando a escurecer, e eu via imensos grupos de sul-africanos andando juntos (em geral, pessoas mais humildes e com a pele bem negra, diferentes da maior parte dos brasileiros que sao mulatos, mais misturados), varios, mas nao me senti ameacada (talvez um pouco mas a carioca aqui se fez de valentona e pensou "deixa comigo"). Eis que de repente uma senhora branca me parou e me perguntou se eu era turista. Respondi que sim, e ela me disse "nao ande por aqui a noite, alias, por nenhum lugar, pegue um taxi, eh perigoso". Eh... realmente... tem fish 'n chips e tal but let's not forget this is Africa.

De qualquer forma, gostei muito da cidade, achei muito bonita, mas vi muitas cercas grandes e arames farpados. O nosso albergue mesmo tinha uma seguranca grande, a cidade a noite era bem mais vazia se comparada a durante o dia. Um ar diferente, mais tenso, um pouco mais tenso do que o do Rio, eu achei. Uma grande Cinelandia a noite talvez.

No albergue conheci alguns mocambicanos; estava no bar sozinha quando ouvi um portugues com uma batida diferente (Mocambique eh vizinha a Africa do Sul e lah eles falam portugues), perguntei de onde eles eram, falei que era brasileira, o sorriso deles abriu (como de praxe o povo ama brasileiro) "aaahh brasileira, jah morei em Niteroi, muito bom, muito bom" e assim eles viraram meus melhores amigos de uma noite. A simpatia, o acolhimento, o tom de voz alto, a brincadeira... te digo uma coisa, isso nos brasileiros puxamos dos africanos, tenho certeza. Comprovei naquela noite de um albergue lotado de ingleses, canadenses, alemaes que os que mais se pareciam comigo, por incrivel que pareca, eram os mocambicanos. Eh ou nao eh pra voltar?

Depois dessa viagem rumei para a Australia em um exaustanta voo de 15 horas entre J'Burg e Sydney, sobrevoando o Indico e toda a extensao da Australia. Quando cheguei a Australia senti falta das cores, do barulho, sei lah, do sal africano (metaforicamente falando), mas nao senti nem um pouco falta do ar de ameaca eterna da noite de Cape Town. Novela das 6, lembra?

No ano seguinte (2008), na perna da volta ao Brasil, parei em Johanesburgo por tres dias. Primeira impressao? Johanesburgo eh feia. E fria. Parece que J'burg eh uma cidade-irma de Sao Paulo no Wikipedia (jah viu isso? Toda cidade no Wikipedia tem cidade-irma, que significa a cidade que se parece com aquele descrita de alguma forma). Pra mim irma de Sao Paulo significa que puxou aqueles genes feios (paulistanos, me desculpem, Sampa tem mil qualidades mas beleza nao eh uma delas). E tava um friiio, mas um frio... era julho, como agora na epoca da Copa, e estavam uns 3 graus na madrugada. O aeroporto, alias, meio baguncado, aqueles caras berrando pra voce pegar o taxi deles... Lembro que o cara do meu albergue se confundiu com o horario e atrasou uma hora, eu tava ali batendo queixo na calcada do aeroporto, olhando tudo ao meu redor e louca pra chegar a uma cama quentinha.

Rumei ao meu albergue, que tinha tambem uma cerca enorme com arame farpado. Era um bom albergue, barato e com piscina (obviamente nao utilizada devido ao frio). O rapaz que trabalhava lah, negro, era muito humilde, mas muito mesmo, olhava pra baixo o tempo todo ao falar e era um tanto quieto. Me lembra um pouco o Brasil.

No primeiro dia fiz um tour por Johanesburgo. Era um tour anunciado pelo albergue e eu era a unica turista em pleno sabado. Eh isso mesmo, J'burg tem poucos turistas - bem diferente de Cape Town. Ou seja, eu poderia fazer o meu percurso. Escolhi dar um passei no meio da cidade para sentir como é, ir ao Museu do Apartheid - uma das experiencias mais chocantes da minha vida - e a uma feira de roupa, comida e artesanato. Essa feira, alias, tinha coisas lindissimas com estampas africanas, coisas que no Brasil ou Australia custariam o olho da cara mas que lah eram baratissimas.

Centro de Johanesburgo.

As duas ultimas fotos acima foram tiradas na famosa favela/bairro de Soweto, famoso "palco" de diversas manifestacoes contra o Apartheid (lembrando que o Apartheid acabou soh em 1994). Alias, alem do Apartheid e da probreza, do Mandela, do alto indice de infectados pela AIDS e dos sul africanos que conheci aqui na Australia, eu pouco sabia sobre o pais.

No geral, vi em J'Burg uma cidade parecida mesmo com Sao Paulo, com predios e cinza, mas em menor tamanho. Tambem descobri que, assim como a Australia, a Africa do Sul eh um dos paises com o maior numero de minerios do mundo: J'Burg cresceu e ficou do jeito estah pela corrida ao ouro, existe (ou melhor, existiu) muito ouro e diamante embaixo e nos arredores da cidade. No meio de Johanesburgo tem ateh uma estatua enorme de um minerador australiano que eu vou ficar devendo o nome (procurei no Google mas nao encontrei).

E as comparacoes nao acabam por aqui:

Both South Africa and Australia were once colonial countries under British rule. Both had gold rushes, and both had significant Asian immigration. However, South African identities are dominated by conceptions of race. In Australia, social policy has worked to prevent race becoming a huge factor in the Australian identity until relatively recently.
Fonte.

No proximo post eu falarei mais sobre a Africa do Sul na Australia, e os varios sul africanos que moram por aqui. Ate la!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Border Security

Border Security é um reality show do canal de TV australiano Channel 7 que mostra o trabalho de “segurança na fronteira” feito pelos agentes de imigração, pela alfândega e do serviço de inspeção de produtos que chegam à Austrália. Eu adoro, tem muita ação, reações emocionais inesperadas, frieza dos agentes, truques inesperados dos passageiros/turistas/etc desmascarados... é um programa que mostra até que ponto o ser humano pode chegar para conseguir imigrar para a Austrália, ou traficar drogas, ou para trazer algum produto escondido para o país.

Vou citar alguns casos que já vi para você entender melhor o reality show. Ele mostra, por exemplo, quando tem um vietnamita suando em bicas tentando entrar na Austrália que parece meio suspeito de estar trazendo drogas – o programa mostra ele sendo parado, revistado, interrogado até acharem ou não drogas nele. O programa também mostra um casal vindo da China cheio de ervas medicinais que preenche o formulário da alfândega dizendo que não estão trazendo nada “proibido” mas depois acabam sendo descobertos e fingem que “não entenderam” o que estava escrito. Ou um ex-presidiário da Nova Zelândia com um vasto histórico criminal tenta entrar na Austrália, acaba sendo parado e interrogado, e tem que dar justificativas para a sua vinda a Austrália e, no final, qual é a decisão da imigração: se deixa ou não ele entrar no país. Ou mostra uma mulher vindo da Malásia que diz ser turista mas que não tem um pingo de dinheiro e que, no final, descobre-se que ela obviamente vai procurar emprego ilegal na Austrália por isso ela acaba sendo mandada de volta pra Malásia. Ou mostra um pacote vindo do Brasil que passa pelo raio-x (90% da correspondência internacional que vem para a Austrália passa por raio-x), lá eles verificam algum produto suspeito dentro do pacote, os agentes australianos o abrem e descobrem que dentro do inocente livro infantil tem 250 gramas de cocaína escondida (esse exemplo é real e apareceu no programa da semana passada).

A Austrália é um dos países com a entrada mais restrita do mundo: praticamente todas as nacionalidades precisam obter visto antes de entrar no país (para alguns países o processo é mais fácil - apenas pela internet -, para outros, como o Brasil, é mais difícil onde até para obter visto de turista é necessário mostrar, por exemplo, demonstrar prova financeira de que se tem condições de bancar a viagem). Além disso, por ser um continente-ilha com uma fauna e flora únicos no mundo (vide cangurus e coalas que só existem aqui), o país tem a quarentena, que é a proibição da entrada de qualquer tipo de comida, planta ou produtos animais – isto por que esses produtos podem trazer diversas doenças e pestes para o país (aqui está a lista do que se pode ou não se trazer para cá). Além é claro, de obviamente não se pode entrar com qualquer tipo de droga, o que muita gente tenta fazer mas acaba sendo pega.

A maior parte do programa é filmado nos aeroportos de Sydney e Melbourne mas às vezes ele também mostra casos nos aeroportos de Brisbane, Perth, nos portos, nos correios, batidas nos lugares suspeitos de estarem empregando estrangeiros sem visto de trabalho, ou o trabalho da alfândega nos barcos ancorados no norte da Austrália (perto da Indonésia e Papua Nova Guiné).

Não é sempre que acontece alguma coisa: às vezes, nada acontece e a pessoa é liberada sem nenhum problema. Às vezes não. Os casos que mais me impressionam são os das pessoas que tentam traficar drogas. Os agentes da imigração suspeitam, por exemplo, de pessoas do sudeste asiático que saíram e voltaram da Australia umas quatro vezes nos últimos seis meses e que acabam permanecendo apenas três dias na Austrália sem nenhuma explicação aparente. Em 90% dos casos eles estão carregando alguma droga dentro deles. Os agentes dos aeroportos já estão carecas de saber disso, por isso eles detectam rapidamente quem pode ser um traficante. Nos correios existem muitos casos de latas lacradas com drogas dentro (geralmente eles pesam as latas e o peso é bem diferente do que está escrito no rótulo) ou, como citei no exemplo do livro infantil que veio do Brasil, os traficantes tentam esconder as drogas entre a capa e a primeira página (que são coladas mas que tem a droga escondida por dentro), em tecidos de tapetes ou roupas, em maquiagem, enfim, vale tudo.

É claro que existem controvérsias sobre o programa. Em seu livro sobre a indústria de Relações Públicas na Austrália o escritor australiano Bob Burton reclamou que na edição do programa é bem provável que eles retirem os trechos que mostram os erros do governo e, com isso, parece que o governo está sendo justo e efetivo na proteção das fronteiras. Pra mim isso é óbvio: é claro que acontece preconceito contra asiáticos e indianos, grosseria, ameaças e etc - ninguém é bonzinho, muito menos australianos que trabalham “protegendo fronteiras”.

Fora isso eu acho um tremendo exagero essa política de quarentena – não se pode trazer nenhum tipo de comida pra Austrália, nenhuma mesmo, nada. Outro dia em um programa um músico cubano trouxe pra Austrália um pandeiro que tinha sementes secas e envernizadas penduradas em volta, estilo aqueles colares e pulseiras que os índios fazem e que se vende em qualquer canto do Brasil. O tal do pandeiro não pôde entrar e ficou retido. O cara quase chorou pedindo pelo amor de Deus, que era o intrumento de trabalho dele, que era exagero etc e tal, mas não teve jeito, ficou sem.

Apesar de ser um reality show, duvido que ele retrate a realidade nua e crua. E também acho difícil ter um programa do gênero no no Brasil, que tem uma realidade (e, principalmente, uma Polícia Federal) bem diferente da australiana. Se é politicamente correto ou não eu não sei - mesmo assim, o programa continua sendo bem interessante.

Neste link do You Tube você pode ver alguns trechos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Entrevista: Sonya, uma australiana que ama o Rio

Conheci a Sonya Edith Francis quando eu estava trabalhando como garçonete em um restaurante italiano. Estava servindo uma mesa enorme com cerca de 20 pessoas que não paravam de falar, e uma das minhas tarefas era contar quais eram os pratos especiais do dia. Com o meu jeitinho bem sutil, gritei bem alto um “hello all, I’ll let you guys know what are the specials of the day” e comecei o meu discurso de dois minutos recitando os cinco pratos especiais do dia (aliás, cada uma que já passei nessa Austrália...). Pois bem, após falar os especiais, essa menina me chama e vem falar comigo com um sotaque bem gringo “oi, você é brasileira?” “sim, sou” “já morei no sul do Brasil, amo, lá é muito legal”. Conversa vai, conversa vem (sim, trabalhar como garçonete tem dessas coisas – cá entre nós, muito melhor conversar com clientes e conhecer pessoas novas do que servir comida e aturar chef italiano grosso) e assim descubro que a Sonya namora um amigo meu, o Tato. Mundinho pequeno esse...

Depois desse episódio do restaurante acabei a encontrando em algumas ocasiões, ainda aqui na Austrália, e tivemos algumas conversas. Nesses bate papos ela me confessou que o maior desejo dela, sonho mesmo, era voltar a morar no Brasil mas dessa vez, no Rio de Janeiro. E não é que ela foi mesmo, na cara e na coragem? E assim ela está, vivendo no Rio como professora de inglês e tradutora. Na Austrália ela era Consultora de Recrutamento de Recursos Humanos.

Sonya tem 28 anos, nasceu e cresceu na pequena cidade de Townsville, no norte do estado de Queensland, é descendente de indianos e ingleses e já mora há mais de um ano em Copacabana. E nem pensa em voltar para a Austrália. Aqui ela conta um pouco sobre a experiência e as diferenças entre a Austrália e o Brasil. Eu mandei as perguntas em português mas ela respondeu em inglês – eu ia traduzir, mas acho que é sempre um aprendizado para o leitor ler em inglês “australiano”. Vamos lá:

Como começou a sua história com o Brasil? (digo, quando vc se mudou para o Brasil pela primeira vez, por que, etc)
I first came to Brazil in 1999 to do a Rotary Youth Exchange Program for one year. I lived with three families in Sao Bento do Sul, Santa Catarina (South of Brazil). I was 17 at the time.

Como foi voltar pra Australia depois de morar um tempo no Brasil? Você começou a ver a Austrália “com outros olhos” (digo, de outra forma)?
The ‘readjustment’ to Australia after living for one year in Brazil was difficult to say the least. After being in such a warm and open culture, particularly living within families and being treated as a daughter of the family, I felt Australia to be a somewhat cold and individual society. I felt relationships between friends, family, colleagues etc in Australia to be very different to those in Brazil. Perhaps not worse, but different in the way people are brought up to treat others. I think the sensitivity and sincerity in the way all Brazilians treat others was the main difference. Sensitivity and sincerity is certainly something which lacks in the way Australians treat each other.

Por que você voltou pro Brasil?
Living in Brazil again was always a dream, ever since I returned after the Exchange Program. I have always loved the country, the culture and the people. This time I really wanted to experience the Rio lifestyle.

Aprender português foi muito difícil?
Learning Portuguese was not that difficult for me in the beginning. I had some luck – I was 17 at the time, I lived in a small city where German (and not English) was the second language and I went to school for 1 year, being able to learn from my school friends. These elements forced me to learn the language very quickly. I also love the Portuguese language and took it upon myself to keep improving. Now, after 10 years of being exposed to the language, I feel that to write, speak and read Portuguese at a professional level is very difficult, particularly without any formal study and or training.

O que você mais gosta no Brasil?
Oh! So much! Primarily the culture – which includes the Brazilian people, the language, the music, the food, the history.... even the bagunça! E muito muito mais! One thing I feel I need to mention here is the ‘curious’ nature of the Brazilian people. I find them to be extremely curious people who love to know everything about people from other countries and or places.

E o que você menos gosta?
The lack of education. I think it affects Brazil’s way of life and speed of progress at all levels.

Pra você, quais são as maiores diferenças entre o Brasil e a Austrália?
For me, the culture if the main difference. Australia does not have a defined culture of its own, whereas Brazil has a strong and varied culture. The nature of the people is also very different.

A violência e criminalidade do Rio afeta muito a sua vida?
I have been lucky – my life has not been affected by the violence here in Rio. Of course, I always take extra care and precautions here.

Você acha a personalidade dos australianos e brasileiros diferente ou parecida? Se acha diferente, quais são as diferenças?
This is a difficult question. There are people of all types in both countries. So, generally speaking - The relaxed and friendly way of Brazilians reminds me of Australians. The differences would be again, the warm and sensitive way Brazilians are naturally. What Australians lack in these qualities they make up for in their politeness and progressive way of thinking. Another difference is sense of humour. I think the Australian sense of humour is more sarcastic, whereas Brazilians are more literal. Finally, another difference (which I mentioned previously) is the way Brazilians are very curious and love to get to know people generally speaking. In this sense, Australians tend to be more reserved and don’t seem to take as much interest in people from other places.

Se passa por brasileira fácil né não?!

Sonya na Confeitaria Colombo, no centro do Rio.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Entrevista: impressões de Gisele, carioca que vive em Melbourne

Gisele Rocha é carioca, tem 26 anos e mora há três em Melbourne com o maridão australiano Luke. Quando morava no Rio ela era professora, mas sua atual ocupação é de chefe administrativa na Universidade de Melbourne. Ela é moderadora de uma das melhores fontes de informação sobre a Austrália na internet: a comunidade Aussileiros do Orkut, que participo desde 2006 quando comecei a procurar informações para vir morar aqui. Sempre lia os comentários dela e ficava bem impressionada com o seu bom-senso e paciência. Trocamos o primeiro email no início de 2008, quando pedi algumas informações (que ela pacientemente respondeu) e, desde então, sempre trocamos emails e finalmente nos conhecemos ao vivo há três meses atrás quando ela veio visitar Brisbane.

A convidei para a entrevista pois tinha certeza que ela poderia dar uma boa noção sobre a Austrália para quem não conhece (e para quem conhece também) – e eu estava certa, como você poderá conferir abaixo.

Como e por que começou a sua “relacão” com a Austrália?

Minha relação com a Austrália começou em 2000, quando uma amiga e eu recebemos na porta da faculdade um folheto da STB com programas de intercâmbio em varios países. Lembro dela falando, "Seria ótimo estudarmos um tempo lá, não acha? Praia e faculdade todos os dias, imagina!" Só lembro de ter respondido que não, Austrália não; não precisava ir tão longe e pagar tão caro para ver praias bonitas. Temos que lembrar que há dez anos atrás quase não havia propaganda sobre a Austrália no Brasil, por isso a minha observação esteriotipada do país: terra do surf, das pessoas bonitas e das praias que são palco do WCT. Depois de alguns anos o destino pregou uma peça em mim... Viajando na Argentina, conheci um menino australiano.Ficamos amigos, nos reencontramos no próximo ano e o resto, bem, o resto é história.

O que te fez mudar do Brasil para a Austrália?

A minha mudança à Austrália se deu por razões familiares. Depois de várias idas e vindas minhas à Australia e do meu então namorado ao Brasil, resolvemos que seria melhor viver no meu país. Infelizmente, não deu certo - depois de alguns meses morando no Rio de Janeiro, de onde sou, decidimos voltar à Austrália.

Quando você chegou na Austrália, você achou o país muito diferente do que você inicialmente imaginava?

Na primeira vez que vim de férias eu fui à Sydney, Melbourne, Gold Coast e Byron Bay. Lembro de não ter achado Sydney tão impressionante quanto pensei que fosse ser. Eu achei parecida com algumas cidades que tinha visitado nos Estados Unidos – tudo muito grande, espalhado, muito trânsito, pouco verde. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. Claro, achei a parte das praias linda, mas acho que as praias daqui não causam tanto furor para uma pessoa que viveu no Rio de Janeiro a vida toda - estamos acostumados com este tipo de paisagem. Depois, fui à Melbourne, de onde meu marido e sua família são. Fiquei apaixonada –a estrutura urbanística da cidade é fantástica, com várias áreas comunais, menos prédios altos, mais áreas verdes e um ar meio alternativo-chic. Não podemos comparar as praias de Melbourne com as de outras cidades na Austrália porque Melbourne está numa baía. Para ver as praias lindas de Victoria, você tem que dirigir até a Great Ocean Road (onde fica Bells Beach, por exemplo) ou então até Sorrento ou Portsea, pelo menos.

Quando vim morar, a perspectiva sobre o país mudou completamente – ainda amava Melbourne, mas a visão da cidade não era mais a de turista. Cheguei no inverno, e inverno aqui é bem frio! Para as pessoas terem uma idéia, tem estação de esqui a duas horas do centro de Melbourne. A máxima no dia é em torno dos 13 graus, mas com o vento a sensação térmica cai bastante. Enfim, foi um choque muito grande em todos os aspectos: climático, cultural, pessoal. No início tive muita relutância em aceitar que as coisas são diferentes do Brasil, questionava o porquê de tudo, me sentia frustrada. Ter que reaprender tudo, desde pegar ônibus até entender a dinâmica de relacionamentos sociais é cansativo. Mas depois de um tempo, fui me acostumando, aceitando e apreciando as diferenças e hoje me sinto totalmente integrada à sociedade.

O que você mais gosta na Austrália?

Tem várias coisas, mas vou listar as minhas favoritas:
- O respeito ao indivíduo. O australiano tem como princípio básico o “fair go”, que é definido como a chance que todos devem ter de tentar algo, e ser dado os recursos para tal. Aqui os cidadãos têm acesso à educação, cultura, lazer, saúde. Claro que temos vários problemas estruturais, mas há uma preocupação para que todos possam ter os direitos básicos atendidos de maneira decente. É uma preocupacão não só do governo, mas também dos indivíduos. A sociedade no geral preza pelo bem-estar comum e os australianos não gostam de tirar vantagem de tudo, muito menos de todos.
- A baixa diferença salarial. Com o passar dos anos tem aumentado, mas ainda é baixa se compararmos ao Brasil. Isso gera menos conflito social, menos violência, uma sociedade mais harmoniosa.
- O respeito ao meio-ambiente. Antes de uma construção ser aprovada, você tem todo um estudo do impacto ambiental que vai causar, inclusive da poluição visual. A populacão é educada para viver em harmonia com a natureza, até porque somos parte dela. Por exemplo, meu trabalho fica perto de uma área de preservação ambiental e ás vezes da minha janela vejo árvores silvestres, raposas, entre outros animais. E olha que estou só a dez minuto do centro de Melbourne!

E o que você menos gosta?

Vamos lá:
- Sistema de transporte. É bom se você mora perto da estação de trem ou parada de bonde, caso contrário você precisa de carro para tudo. Não gosto de ter que depender de carro, mas às vezes tenho que ir à lugares que não têm acesso à transporte e sou obrigada a dirigir.
- O preço dos imóveis. Acho proibitivo. Parece que os australianos vivem em função de pagar hipoteca. Os salários são maiores, mas ainda sim uma pessoa sozinha num salário mediano não consegue pagar a prestação de um imóvel de dois quartos, por exemplo.
- Distância para outros países. Do Rio você está na Argentina, Peru, Chile, Uruguai a algumas horas de voô. Aqui, tirando Nova Zelândia, pelo menos seis horas para algum outro lugar!

O que você mais sente falta do Brasil?

Além da família, comida e amigos, sinto falta da paixão das pessoas. Sim, nós latinos somos muito “inflamados” e mostramos isso nas nossas interações sociais. Uma discussão entre amigos parece uma briga para australianos – eles não entendem que defendemos nossos pontos-de-vista com unhas e dentes e que não há problema algum com isso. Aqui as pessoas ficam mais em cima do muro, o conflito não é algo muito apreciado pelos australianos. Às vezes eles nos acham “opinionated”, ou seja, expomos até demais nossa opinião quando não deveríamos. Também sinto falta da musicalidade – respiramos música, faz parte de nós. Você vai à festa de aniversário de criança e muitas vezes não tem nada tocando.

O que o Brasil pode aprender com a Australia e vice-versa?

O Brasil poderia aprender com a Austrália a ter relações sociais e trabalhistas mais igualitárias. Muitas vezes eu acho engraçado brasileiros que vêm para cá e não se importam em trabalhar de faxineiros, babás, motorista (ou com os próprios eufemismos usados por eles: cleaner, baby-sitter e driver, pois soa menos braçal) já que a remuneração é decente e são tratados de igual para igual. Mas no Brasil, essas mesmas pessoas jamais pensariam em pagar R$25/hora às suas faxineiras, por exemplo. E não conseguem perceber que toda essa exploração que temos no nosso país gera instabilidade social, e acaba desencadeando violência.

Já a Austrália poderia aprender a ser mais flexível – às vezes as regras são seguidas à risca, e tudo o que é demais pode ser ruim. E também apreciar mais a companhia dos amigos e família; ao meu ver o foco é tão grande em trabalho, acúmulo de bens, que o lado social fica um pouco de lado. Por último, os australianos poderiam se abrir mais com os amigos e família – vejo que muita gente fica com medo de se abrir emocionalmente e ser visto como “fraco”.

Você pensa em voltar a morar no Brasil? Se sim, quando?

É uma pergunta difícil. Muitas vezes eu sinto vontade, principalmente quando vejo fotos de amigos brasileiros que retornaram e estão bem, felizes. Porém, entendo que estar longe ajuda a criar uma realidade que não existe, onde tudo é perfeito; recentemente visitei minha família e senti que a minha cidade (Rio) não condizia mais com os meus planos de vida, que ela não poderia proporcionar o que desejo: paz, segurança, estabilidade profissional. Hoje corre tudo como o planejado, então não tenho planos de retornar ao Rio num futuro imediato. Logo eu, que há dez anos atrás se recusou a fazer um intercâmbio na Austrália...

Gisele na Flinders Lane, rua no centro de Melbourne.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Ficar ou não ficar, eis a questão‏

Às vezes sinto a maior saudade. Do nada ela bate. E bate, viu. Parece um daqueles ventos quentes de verão que abrem-alas pra uma apocalíptica tempestade. Essa é aquela danada de saudade que chega e já se espalha - ela dói, é pesada, e me faz pensar se é isso mesmo que eu quero, se essa é a escolha da minha vida. Ficar longe, muito longe, longe da minha cultura, da minha língua, do meu sorriso. O meio-de-campo de emoções se embola e dá aquela vontade louca de falar "que se foda" e pegar o primeiro avião. Encontrar a minha terra, o meu céu... Começo a viajar sozinha e a imaginar, aos poucos, a ansiedade da espera para se chegar ao meu, meu tão sonhado Rio, a vista das montanhas lá de cima da janelinha do avião, suas praias, seu mar. A recepção no aeroporto, o caminho pra casa, os encontros.

Ah, se eu fosse maluca...

É, mas calma que eu não sou não, a vontade aparece mas eu sempre acabo despertando desse estado entorpecido (que dura exatos 7 segundos - eu já contei). O que eu tenho é que aprender a domesticar a minha mente que ainda não sabe se comportar e às vezes transvia para esses pensamentos gostosos e insanos.

Olho em volta e vejo que isso - que de uma forma, continua sendo um sonho; é real. Penso no que tem aqui, no presente, onde estou. E no aproveitar, curtir, me entregar. Aqui mesmo, em volta, no mundo palpável, físico. O que tem de bom, por que vim, por que decidi isso, e assim começo a pensar naquele meu Rio de outra forma e lembro dos truques da nossa imaginação, que fazem a gente idealizar uma história, um lugar.


Às vezes construo o seguinte diálogo criando os personagens na minha cabeça representando o Brasil e a Austrália:

- Hummm, esse seu Rio aí, que que tem nele? Tem coisa boa?
- Tem sim senhor.
- Tem coisa ruim?
- Também tem sim senhor, diria que até bastante.
- Tem coisa muito boa?
- Putz, tem coisa muuuito boa!!! Muitas coisas muito boas, aliás.

Já com o outro personagem é assim:

- E aqui, nesse país longe, diferente? Tem coisa boa?
- Tem sim senhor.
- Tem coisa ruim?
- Hummm. Tee-... hummm, olha senhor, coisa ruim, assim ruim ruim, nao sei... não não, tem coisa ruim sim, mas não é ruuuim não sabe? É ruim mas não é ruim. Tendeu?
- Hum, mais ou menos. Não é tão ruim assim, você quer dizer?
- É. Acho que é por aí.
- Tá, ok, ok, confuso isso hein. Vamos mudar pra coisa boa. Tem coisa muito boa?
- Tem coisa boa sim senhor.
- Não falei boa, falei muito boa. Tem coisa muito boa?
- Hum, tem.
- Só isso?
- É, ué, já falei que tem.
- E a empolgação, cadê? Voce tá falando de coisa muito boa lembra? É isso?
- Hum, é. Tem. Tem sim.

Às vezes é assim que me sinto. Um amigo uma vez me falou uma frase que eu não vou esquecer nunca: "Verinha, enquanto a Austrália é novela das 6, o Brasil é novela das 8". Pros 3% de brasileiros que não veem novela, eu explico: as novelas das 6 são aquelas com cenários lindos, tudo limpo, perfeito. Todo mundo arrumado, bonito, com pele lisa sabe? Geralmente é novela de época. As ações são poucas, geralmente uma história romântica, fofocas inocentes dentro de casa, sorrisos, gente simpática e claro, um galã estilo Disney e o casal que se casa no final e assim são felizes para sempre.

A novela das 8 não. A novela das 8 tem ação, tem o mocinho cheio de falhas geralmente mulherengo e safado e que tá pegando a secretária, mulheres loucas urbanas e obsessivas que destratam seus funcionários que trabalham naquela mega-corporação da família, viagens para a Europa no início da novela, alguém que é assassinado no final, o mendigo-gente-boa que toca um sambinha na rua, a história da empregada pobre, a história da patroa rica - sempre, com muita, mas muita ação essa novela das 8.

Engraçado que pra mim essa comparação se encaixou perfeitamente. Assim como o Tom Jobim que falou aquela famosa frase: “Morar no Brasil é uma merda mas é bom, morar nos EUA é bom mas é uma merda.”

Outra seria aquela do motorista de bugue nas dunas de Natal: "E aí dona, quer com emoção ou sem emoção?". O Brasil é com emoção. Ah, devo falar que eh com tanta emoção que parece até que você vai cair do bugue no meio caminho - em compensação, você se diverte que é uma beleza.

Por que eu tô falando isso?

Devo confessar que a minha primeira idéia era sentar na cadeira para escrever um post sobre o que é ser "imigrante" mas não tem jeito, antes de entrar na tática eu tinha que colocar o dedo na principal ferida – por que meu amigo, se você não está preparado emocionalmente pra isso, é melhor pensar com mais calma afinal esse é o primeiro ponto: saudade, indecisão, pensar lá e aqui. Querer voltar, querer ficar.

Claro que isso não acontece o tempo todo, a gente acaba se integrando à rotina australiana e tem dias (às vezes, semanas) que nem se pensa no Brasil, família e amigos. Mas por mais que você esteja integrado, você vai sempre pensar no seu país – pensar só não, mas idealizá-lo usandos lentes cor-de-rosa e lembrando, na maioria, das coisas boas. Por isso é bom parar para lembrar das coisas ruins também, se não você pira. E tem coisa ruim sim, como falei antes, tem muita. Infelizmente.

Bem, aqui eu estou falando de mim: conheço gente que pensa ao contrário, quando lembra do Brasil, lembra de assaltos, pobreza, insegurança. Só lembra das coisas ruins. De repente era melhor pensar assim, mais fácil. Mas não consigo. Essa não seria eu, não seria a Verinha que, apesar de tudo, ainda ama o Brasil. Quanto a essa indecisão a que me refiro, conheço de tudo: brasileiros que nem pensam em voltar, brasileiros que nem pensam em ficar... Mas a maioria quer ficar na Austrália por um tempo e depois voltar para o Brasil: seja em dois anos, cinco, dez ou quando se aposentar. Se isso vai acontecer mesmo, ai eu jah nao sei. Mas não tem jeito, você não esquece nunca.

Quando você mora fora tudo é novo. Você não tem uma história naquelas ruas, o verde das plantas tem um tom diferente, mais que um idioma, o jeito de se expressar é diferente, de comer, de celebrar, de negociar, de comprar. Quando nós brasileiros lembramos das aulas de História da quinta série, pensamos no Pedro Álvares de Cabral e no Tratado de Tordesilhas. Eles não. Os símbolos, os sinais mudam diferentes. O jeito de fazer amigos, o modo de conseguir trabalho... fora a distância da familia e dos amigos de longa data que nunca, nunca serão substituídos.

Mesmo com tudo isso, fico admirada como as qualidades fundamentais de nós, humanos, seres complexos e mutáveis. Por que, apesar disso tudo no final "a gente se vira". Se vira sim, aprende, quebra a cara, se dá bem, enfim, aprendemos com os nossos erros e acertos. A gente insiste por que, mais do que emoções limitadas à nossa cabeça, o que todo mundo quer é viver bem.

Vejo, no caso de vários brasileiros, que mesmo com tudo isso a vida aqui na Austrália ainda é melhor. No final das contas, o que compõe, digamos, 70% da nossa vida é aquela rotininha lá do dia-a-dia: trabalho, casa, esperar o final de semana, final de semana, casa, trabalho etc. E por mais que você tenha um certo “conforto” (metaforicamente falando) no país de origem, às vezes você não tem qualidade de vida ou perspectiva de ter uma vida melhor (agora conforto esse economicamente falando).

E essa é uma das grandes atrações da Austrália. Apesar de parecer ter falado que aqui não tem coisa muito boa, devo voltar atrás e falar que tem, sim, principalmente as possibilidades que se abrem em vários quesitos. Poder viajar mais, absorver uma nova cultura, começar a ver o mundo – e principalmente, o Brasil – com outros olhos. Aprender, se aventurar, odiar, sofrer, amar. Sair da zona de conforto.

Eu sei que tem gente que não troca a vidinha de sempre no Brasil por nada – isso aí, cada um tem a sua escolha. As pessoas são diferentes, precisam de experiências diferentes. Pra mim a Austrália foi e continua sendo uma experiência única, inesquecível. Certamente saí da minha zona de conforto ao tentar a vida em outro país. Já me perguntei diversas vezes se fiz a coisa certa. Fiz sim, só eu sei que se eu não tivesse vindo morar fora seria uma eterna frustrada.

Sair da zona de conforto.

E entrar nela também.

O triste do nosso país é que ele não te dá muito liberdade: liberdade não é poder beber cerveja na praia, pra mim liberdade muito maior é poder se arriscar na vida e saber que você não vai estar na merda quando voltar. Que vai ter um emprego, que vai ter dinheiro, que não, nunca você vai ficar na sarjeta. Aqui não rola isso por que qualquer emprego que você tenha você ganha dinheiro. Grana boa, pra viver uma vida acima do razoável.

Alguns brasileiros que conheço são loucos pra voltar a morar no Brasil mas não voltam. A primeira pergunta que passa pela cabeça deles é: “voltar pra fazer o que?”. Ficam com medo de passar perrengue no Brasil, apavorados pela incerteza, pela dificuldade em encontrar um emprego que pague bem, que faça eles terem uma vida decente, fora a inseguranca que pesa muito. E assim o verde brasileiro se torna menos verde, as praias, menos bonitas, o povo mais triste. E aquele sonho que eu tive lá no começo muda.

De uma certa forma, eu não posso reclamar muito pois nunca tive dificuldade de encontrar emprego no Brasil. Mas não tenho pressa de voltar. Sinto falta, sinto saudade, mas ainda tenho um bom tempo aqui na Austrália. Não quero só viver, quero navegar, explorar, ver mais, conhecer mais. Tenho certeza que o meu Rio estará sempre lá, de braços abertos e sorrindo pra mim.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Imigração australiana fecha as porteiras

Resumo das matérias do jornal O Dia Online e do Terra sobre as mudanças anunciadas ontem, dia 8 de fevereiro, pelo ministro de imigração australiano (Department of Immigration and Citizenship) :

O Governo da Austrália resolveu mudar as regras de concessão de residência a estrangeiros para conter o fluxo de imigrantes para o país. O ministro da Imigração australiano, Chris Evans, informou que a lista de profissões em falta no país vai ser abolida e a política de entrada de estrangeiros será concentrada em pessoas com alta qualificação profissional. (nota minha: antes existia uma lista com certas profissões em demanda na Austrália - engenheiros, trabalhadores da construção civil, médicos, arquitetos, chefs de cozinha, carpinteiros, cabaleireiros... eram mais de 50 profissões. Se a sua profissão estivesse nessa lista você teria preferência no processo de imigração para a Austrália, que é baseado no sistema de pontos).

"Temos dezenas de milhares de estudantes cursando culinária, contabilidade e (curso de) cabeleireiro porque isso estava na lista e permitiu que eles conseguissem a residência permanente", disse Evans a uma rádio australiana. (nota: é verdade, existem milhares de pessoas - e muitos brasileiros que conheço - que só fizeram esses cursos para conseguir o visto. Uma vez conseguido o visto permanente, essas pessoas vão trabalhar em outra área. O Aaron, meu marido que é chef de verdade, tinha horror a essa política, já que inundava o mercado com chefs que não sabiam nem segurar uma faca e colocava o salário dos chefs "reais" lá embaixo).

As novas prioridades vão incluir médicos e enfermeiras, além de engenheiros e profissionais da mineração, setor que encontra dificuldades para atender a crescente demanda por matéria-prima da China.

A mudança de política se junta a outras medidas introduzidas recentemente e que marcam um endurecimento na política de imigração do país (nota: depois da crise econômica os australianos ficaram com mais medo de terem menos empregos e deles serem tomados pelos estrangeiros. Junto a isso, esse é ano de eleição na Austrália, e obviamente essa política de imigração mais fechada agrada muito aos votantes).

Desde o final do ano passado, o governo passou a fazer novas exigências para a concessão de vistos a estudantes estrangeiros.

A renda mínima que um estudante tem que comprovar através de extratos bancários do seu o países de origem subiu de R$ 19 mil para R$ 29 mil por ano - uma média de R$ 2,5 mil por mês.

Ao solicitar o visto nas representações consulares australianas, além de apresentar os extratos bancários, os estudantes têm que apresentar documentos como matrícula em universidade ou comprovante de trabalho fixo, para provar que tem vínculo com o país de origem e condições financeiras de se sustentar na Austrália.

O Brasil é o sexto país que mais envia estudantes anualmente para a Austrália, atrás da Índia, China, Nepal, Coreia do Sul e Tailândia, respectivamente.

Informações oficiais direto do site da Imigração da Austrália aqui.

Mais, em inglês,  no
Daily Telegraph e ABC News.