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sábado, 19 de junho de 2010

Africa do Sul e a Australia

(desculpe, hoje meu teclado estah sem acento)

Aproveitando o momentum Africa do Sul & Copa do Mundo, queria falar um pouco mais sobre esse pais que tem tantas diferencas e similaridades com a Australia e com o Brasil.

Como sempre, vou falar o que sei e o que vi - estive duas vezes na Africa do Sul (na Cidade do Cabo em 2007 e Johanesburgo em 2008), conheco alguns sul-africanos e, obviamente, moro na Australia o que me deu uma boa ideia de comparacao com esse seu "irmao desgarrado" de mesmos pais (os ingleses), padrasto distinto (o africano eh holandes) e "criacao" bem diferente...

Primeiro, uma ressalva para os brasileiros que moram ou que pretendem viver na Australia: da proxima vez que voce for visitar o Brasil, compre a passagem pelo outro lado do mundo, e nao via Nova Zelandia e Chile/Argentina. Lembro que a passagem custou meros 200 dolares a mais via Africa, e a experiencia valeu muito a pena - tanto que quero voltar pro continente (soh nao sei ainda quando, mas com certeza essa jornada me mostrou que a Africa deveria estar mais no mapa, na imprensa, na nossa vida).

Toda vez que faco o trajeto Brasil-Australia e vice-versa eu aproveito as paradas habituais do voo para conhecer o pais da escala. Santiago e arredores jah conheco muito bem de outros carnavais, jah que mi hermanito Beto mora por lah ha mais de 15 anos (fala Betito, taih maninho?!), mesmo assim, vejo sempre como uma oportunidade poder usar o voo para parar e conhecer um pouco mais sobre o que o Chile tem a oferecer. Nova Zelandia a mesma coisa, tanto eh que no ano passado o percurso Brasil-Australia demorou tres semanas a mais: duas no Chile (com Deserto de Atacama incluido - falei um pouco sobre lah nesses posts) e Nova Zelandia (uma semana na Ilha Sul nos mostrou os lugares mais lindos e breathtaking que pude imaginar na vida).

Ou seja, meu primeiro recado antes de comecar a falar sobre a Africa do Sul eh: aproveite essa longa viagem da Republica das Bananas pra Terra dos Cangurus, curta, e se voce for de ferias da Australia ao Brasil, nao se prenda todo tempo ao Brasil, pare no caminho, ou na ida, ou na volta, ou nos dois. Faca valer o seu dinheiro (jah que a parada seria mesmo escala e voce nao estah pagando extra por isso) e a sua vontade de conhecer o mundo. E de quebra o jet-leg inicial fica mais facil de ser digerido.

Falando da viagem em si: o percurso seria Rio-Sao Paulo-Johanesburgo-Sydney-Brisbane e vice-versa, mas quando parei em Johanesburgo, lah mesmo no aeroporto, comprei uma passagem para a Cidade do Cabo (Cape Town) que fica a cerca de 3 horas de voo ao oeste de Johanesburgo (passei quase por cima da cidade a caminho de Johanesburgo, ou seja, fui e voltei). Vale frisar que o aeroporto de Johanesburgo jah em 2007 estava cheio de posters pre-Copa do Mundo. Pois bem, no voo mesmo entre J'burg (assim carinhosamente chamada pelos locais) e Cape Town o caminho jah eh impressionante, com muitas montanhas e desertos.

Pode me chamar maluca, mas juro pra voce que neste voo que cruza a Africa do Sul fiquei olhando pra baixo quase o tempo todo pra ver se achava um elefante, uma zebra ou uma girafa pelo caminho hehe. Soh muito depois fui descobrir que um tour por um safari qualquer da vida custa carissimo, pelo menos uns 1500 dolares por 3 dias. Na epoca, minha vida de mochileira e garconete na Australia nao me permitiu tal ousadia, mas tudo bem, soh a experiencia de estar lah, naquele continente "perdido" (como pode ser chamado de perdido neh?) jah valia uma Arca de Noe inteira. Duas, tres.

A Cidade do Cabo eh uma cidade linda que me lembrou um pouco o Rio de Janeiro, com o sensacional encontro entre natureza, verde, montanha e mar. Quando saih do aeroporto lembro que vi algumas favelas, mas elas sao um pouco diferentes: cada casinha eh bem menor (descobri em um tour depois que elas sao chamadas de match boxes - caixinhas de fosforo), planas, e feitas com um material diferente, acho que zinco...

Os sinais e placas nas ruas sao escritos em Afrikaan (lingua oriunda do holandes, que chegaram por aquelas bandas em 1600 e alguma coisa) e ingles. No caminho reparei em alguns Fish 'n Chips, tao comuns na Australia, e a arquitetura inglesa, com algumas casas, pubs e hoteis bem parecidos com o que vejo em Brisbane. Verdade, sao todos da Commonwealth pensei - India, Canada, Africa do Sul, Australia, Inglaterra, Nova Zelandia e alguns outros paises, todos com colonizacao inglesa... Apesar das diferencas economicas obvias, acredito esses paises tenham muito mais em comum do que imaginamos. Confesso que, ateh fruto da minha falta de informacao, eu me surpreendi pois nao esperava encontrar um pouco da Australia na Africa do Sul fora a lingua e o fato dos dois estarem no hemisferio sul (como o Brasil).

Na minha pesquisa sobre o que tem de parecido entre a Australia e a Africa do Sul achei uma entrevista bacana de um executivo sul africano da BMW que tambem trabalhou na Australia e disse que ambos os paises tem "surprising similarities". Leia um trecho:

Clive Prevost: When most people think of Africa, and even South Africa, they probably imagine a very different society to Australia. While there certainly are many differences, there are also a surprising number of similarities.

Both countries are in the southern hemisphere, and thus relatively lacking in access to major international markets. The structure of the economies is surprisingly similar: 60-70% services, 10-15% primary industries and 10-15% manufacturing. Both are major exporters: Australia is listed in 29th place and SA in 39th place (out of 228 countries), according to one recent study. Both countries are rich in natural resources such as gold, coal, iron ore, nickel, uranium, diamonds, natural gas and other minerals specific to each country.

Legal systems in both countries are based on English common law (although South Africa has other influences as well). Both rate well for political and civil liberties, and both, of course, share a passion for sports.
Entrevista completa neste link.

Depois falo mais sobre isso, vamos voltar a viagem com algumas fotos que tirei pela Cidade do Cabo e arredores:

Como pode?


Pub/Hotel em Cape Town.

Table Mountain.


Nao eh soh o oceano que tem contrastes...

Praia no caminho entre Cape Town e o Cabo da Boa Esperanca. Tem muito pinguim por essa costa.


Cabo da Boa Esperanca: lembra das aulas de historia?

Na minha curta vigem de cinco dias a Cidade do Cabo eu conheci a ilha-prisao que o Mandela ficou preso por mais de 20 anos (Robben Island), o Cabo da Boa Esperanca, fiz um tour por umas montanhas ao lado da cidade, andei um pouco... E tenho que fazer uma ressalva nesse ultimo: algumas vezes me senti sim insegura por andar a noite por Cape Town.

Uma hora estava caminhando do meu albergue em direcao a um famoso cais da cidade cheio de bares e restaurantes, eram umas 7 da noite e estava comecando a escurecer, e eu via imensos grupos de sul-africanos andando juntos (em geral, pessoas mais humildes e com a pele bem negra, diferentes da maior parte dos brasileiros que sao mulatos, mais misturados), varios, mas nao me senti ameacada (talvez um pouco mas a carioca aqui se fez de valentona e pensou "deixa comigo"). Eis que de repente uma senhora branca me parou e me perguntou se eu era turista. Respondi que sim, e ela me disse "nao ande por aqui a noite, alias, por nenhum lugar, pegue um taxi, eh perigoso". Eh... realmente... tem fish 'n chips e tal but let's not forget this is Africa.

De qualquer forma, gostei muito da cidade, achei muito bonita, mas vi muitas cercas grandes e arames farpados. O nosso albergue mesmo tinha uma seguranca grande, a cidade a noite era bem mais vazia se comparada a durante o dia. Um ar diferente, mais tenso, um pouco mais tenso do que o do Rio, eu achei. Uma grande Cinelandia a noite talvez.

No albergue conheci alguns mocambicanos; estava no bar sozinha quando ouvi um portugues com uma batida diferente (Mocambique eh vizinha a Africa do Sul e lah eles falam portugues), perguntei de onde eles eram, falei que era brasileira, o sorriso deles abriu (como de praxe o povo ama brasileiro) "aaahh brasileira, jah morei em Niteroi, muito bom, muito bom" e assim eles viraram meus melhores amigos de uma noite. A simpatia, o acolhimento, o tom de voz alto, a brincadeira... te digo uma coisa, isso nos brasileiros puxamos dos africanos, tenho certeza. Comprovei naquela noite de um albergue lotado de ingleses, canadenses, alemaes que os que mais se pareciam comigo, por incrivel que pareca, eram os mocambicanos. Eh ou nao eh pra voltar?

Depois dessa viagem rumei para a Australia em um exaustanta voo de 15 horas entre J'Burg e Sydney, sobrevoando o Indico e toda a extensao da Australia. Quando cheguei a Australia senti falta das cores, do barulho, sei lah, do sal africano (metaforicamente falando), mas nao senti nem um pouco falta do ar de ameaca eterna da noite de Cape Town. Novela das 6, lembra?

No ano seguinte (2008), na perna da volta ao Brasil, parei em Johanesburgo por tres dias. Primeira impressao? Johanesburgo eh feia. E fria. Parece que J'burg eh uma cidade-irma de Sao Paulo no Wikipedia (jah viu isso? Toda cidade no Wikipedia tem cidade-irma, que significa a cidade que se parece com aquele descrita de alguma forma). Pra mim irma de Sao Paulo significa que puxou aqueles genes feios (paulistanos, me desculpem, Sampa tem mil qualidades mas beleza nao eh uma delas). E tava um friiio, mas um frio... era julho, como agora na epoca da Copa, e estavam uns 3 graus na madrugada. O aeroporto, alias, meio baguncado, aqueles caras berrando pra voce pegar o taxi deles... Lembro que o cara do meu albergue se confundiu com o horario e atrasou uma hora, eu tava ali batendo queixo na calcada do aeroporto, olhando tudo ao meu redor e louca pra chegar a uma cama quentinha.

Rumei ao meu albergue, que tinha tambem uma cerca enorme com arame farpado. Era um bom albergue, barato e com piscina (obviamente nao utilizada devido ao frio). O rapaz que trabalhava lah, negro, era muito humilde, mas muito mesmo, olhava pra baixo o tempo todo ao falar e era um tanto quieto. Me lembra um pouco o Brasil.

No primeiro dia fiz um tour por Johanesburgo. Era um tour anunciado pelo albergue e eu era a unica turista em pleno sabado. Eh isso mesmo, J'burg tem poucos turistas - bem diferente de Cape Town. Ou seja, eu poderia fazer o meu percurso. Escolhi dar um passei no meio da cidade para sentir como é, ir ao Museu do Apartheid - uma das experiencias mais chocantes da minha vida - e a uma feira de roupa, comida e artesanato. Essa feira, alias, tinha coisas lindissimas com estampas africanas, coisas que no Brasil ou Australia custariam o olho da cara mas que lah eram baratissimas.

Centro de Johanesburgo.

As duas ultimas fotos acima foram tiradas na famosa favela/bairro de Soweto, famoso "palco" de diversas manifestacoes contra o Apartheid (lembrando que o Apartheid acabou soh em 1994). Alias, alem do Apartheid e da probreza, do Mandela, do alto indice de infectados pela AIDS e dos sul africanos que conheci aqui na Australia, eu pouco sabia sobre o pais.

No geral, vi em J'Burg uma cidade parecida mesmo com Sao Paulo, com predios e cinza, mas em menor tamanho. Tambem descobri que, assim como a Australia, a Africa do Sul eh um dos paises com o maior numero de minerios do mundo: J'Burg cresceu e ficou do jeito estah pela corrida ao ouro, existe (ou melhor, existiu) muito ouro e diamante embaixo e nos arredores da cidade. No meio de Johanesburgo tem ateh uma estatua enorme de um minerador australiano que eu vou ficar devendo o nome (procurei no Google mas nao encontrei).

E as comparacoes nao acabam por aqui:

Both South Africa and Australia were once colonial countries under British rule. Both had gold rushes, and both had significant Asian immigration. However, South African identities are dominated by conceptions of race. In Australia, social policy has worked to prevent race becoming a huge factor in the Australian identity until relatively recently.
Fonte.

No proximo post eu falarei mais sobre a Africa do Sul na Australia, e os varios sul africanos que moram por aqui. Ate la!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Regras e leis australianas

Nessa sexta que passou eu estava em um bar no centro de Brisbane com alguns amigos e, como de praxe, um grupo saiu para fumar já que é proibido fumar em lugares fechados. Assim como milhares de fumantes fazem todos os dias, uma das meninas (brasileira) jogou a bituca de cigarro na calçada e adivinha o que aconteceu? Um policial a viu e ela levou uma multa na hora: 200 dólares. E não tem mas, porém todavia contudo não, é multa certa.

Aqui na Austrália é assim: não obedeceu, levou. Muitas pessoas reclamam que a quantidade de leis e regras é exagerada – eu, sinceramente, tenho dúvidas: às vezes acho que é um pouco demais sim, mas acima de tudo acho que são necessárias para uma sociedade viver em ordem e harmonia. Discussões à parte, uma coisa é certa: em relação a ter e seguir regras, a Austrália é completamente diferente do Brasil. Primeiro, por que a lei funciona. Segundo, por que ela funciona para todos – ricos e pobres. Terceiro, por que a polícia é respeitada e bem equipada, com profissionais treinados.

Para os businesses (bares, lojas, empresas etc) existem regras meio exageradas o que daria assunto para outro post. Por exemplo, essa eu aprendi quando fiz curso para virar garçonete (taí um exemplo de lei: todo mundo que serve álcool tem que fazer um curso) – se o cliente ficar bebum e for atropelado quando sair do estabelecimento, adivinha de quem é a culpa? Do bar que o serviu até ele ficar bêbado, e não do cara que bebeu além da conta. E aí o bar teria que pagar uma multa pesadíssima por isso. Ou se um garçom for pego servindo álcool a alguém que já está visivelmente embriagado, a culpa é do garçom e do bar, e não do sujeito. Multa pro bar e multa pessoal pro garçom.

Seguem alguns exemplos, mas a lista é claro, é muito maior:

Fumar: proibido em qualquer lugar fechado. Alguns poucos pubs e bares tem um pátio aberto que permite fumar, mas você precisa de uma licença especial. Ah, e um detalhe: é proibido fumar na praia. Yeap.

Bebida alcóolica: proibido beber em lugares públicos como parques, praias, etc. Claro, você pode beber dentro da sua casa ou em um restaurante licenciado ou em um bar. Beber e dirigir obviamente é uma ofensa gravíssima, mas pelo menos aqui você pode tomar duas latas de cerveja ou uma taça de vinho antes de dirigir.

Assim como no Brasil, para comprar álcool ou tabaco você tem que ter no mínimo 18 anos (mas aqui eles pedem carteira em 100% dos casos – outro dia me pediram quando fui comprar vinho em um bottle shop, fiquei tão feliz).

Você não pode vender nada nas ruas (incluindo para outra empresa) sem ter uma licença especial (com exceção de garage sales – que são vendas de coisas pessoais na garagem da sua casa). Multa pesada se o fizer. Camelô? Jamais.

Andar de bicicleta sem capacete (sim, obrigatório o tempo todo) ou dirigir o carro sem cinto de segurança (inclusive no banco traseiro) dá multa. Bicicletas são considerados veículos na Austrália, e os motoristas de carro devem dar espaço aos ciclistas (porém nem sempre eles fazem isso). O ciclista deve usar o braço para sinalizar se for virar à direita ou esquerda. Bicicletas são proibidas em rodovias de alta velocidade e nas grandes cidades existem faixas especiais para ciclistas. Ah, e a noite toda bicicleta tem que usar uma luz traseira e dianteira, obrigatório também. Eu vou pro meu vôlei a noite de de bicicleta com capacete e luz traseira, mas a dianteira queimou, e eu fico super preocupada de levar multa...

Para aqueles que adoram brigar, saibam que tocar em uma pessoa sem seu consentimento é considerado invasão de privacidade e pode acabar com processo. Não estou falando em dar um chute em uma pessoa não, apenas tocá-la é considerado uma ofensa. Você pode gritar, jogar coisas no chão, o que for, mas se você ofender verbalmente ou dar um soco em uma pessoa, já era, você terá problemas. A justiça é rapidíssima nesse caso geralmente dando multas graves ao agressor.

Se você está dirigindo e um pedestre começar a andar na faixa de pedestre, você tem que parar e esperar ele atravessar a rua. É lei. Não fez isso, leva multa.

Se você não pagar uma multa, ela se torna maior a cada mês, e caso você fique um bom tempo sem pagar você pode ter seus bens confiscados ou ser levado à prisão. Isto é, se você deixar a Austrália sem pagar uma multa, quando retornar em um futuro distante é capaz de você ter uma bela surpresa – isso se eles deixarem você voltar!

Aqui na Austrália tem que ficar ligado, não tem jeito. E não tem conversinha não, a melhor estratégia é simplesmente seguir a lei, o que leva um tempo para se acostumar, mas não é tão difícil assim e ver uma sociedade funcionando é recompensador. Eu acho que não seria nada mal se todos os brasileiros passassem um tempo na Austrália para sentir na pele como é um país que segue as leis...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Últimas minhas e da Austrália

Comecei esse blog tão animada a escrever pelo menos três posts por semana – e ainda estou – mas, como já falei antes, o trabalho está realmente pesado e me consumindo, principalmente no ultimo mês. Quem já trabalhou na implementação de SAP sabe o que eu estou falando. Geralmente saia às 5 da tarde e quando chegava em casa ainda tinha ânimo de sentar no computador e escrever mais. Mas não, agora esse tempo acabou e são apenas memórias boas do passado. Justo eu, que às vezes reclamava que não tinha muita coisa pra fazer, agora não tenho tempo para fazer tudo o que tenho que fazer. Me lembra aquele velho ditado “cuidado com o que você pede pois o seu pedido pode ser atendido”. É, eu era feliz e não sabia.

Minha rotina tem sido chegar no trabalho às 8 da manhã e sair as 5.30, 6 da tarde. Hoje, por exemplo, cheguei no escritório às 7.30 da manhã e saí lá pelas 6 da tarde. Muitas vezes almoço sentada na mesa olhando pro computador. Ou seja, estou fazendo justamente o que eu criticava sobre a cultura australiana de não socializar na hora do almoço. Agora entendo bem o porquê deles fazerem isso, pelo menos pra mim, pois assim consigo de vez em quando sair as 5 da tarde e ir pro meu querido vôleizinho a noite.

Sabe que eu até gosto de chegar mais cedo e sair mais cedo do trabalho? No começo foi difícil me acostumar a acordar tão cedo, mas hoje em dia eu me adaptei. É tão bom saber que tenho a noite inteira pela frente... Acho que outro ponto é que não tenho saído a noite durante a semana ou feito alguma coisa com algum amigo como fazia tanto no Brasil (tá lendo isso Pedro?) – até faço, mas como já falei algumas vezes, aqui as pessoas acabam se encontrando mais cedo pra jantar, ou pra beber, ou seja lá o que for, “puxando” as horas para baixo.

Ah, e como falei, é claro, duas vezes por semana vou do trabalho direto pro vôlei de praia.

Vôlei de Praia em Brisbane
Falando nisso (pois vamos combinar que falar sobre vôlei é bem melhor do que falar sobre trabalho), descobri que aqui em Brisbane tem diversos lugares com vôlei de praia, mesmo sem ter praia na cidade. Como já falei nesse post, jogo vôlei de praia rebound todas as terças e agora, às quartas jogo vôlei de praia “normal”, sem ser o tal rebound. Conheci um dos integrantes do time em uma festa e ele comentou que jogava vôlei em uma praça em West End, perto do centro. Não deu outra , me ofereci para entrar no time e, há dois meses, jogo toda quarta com eles. A ironia é que o time se chama “Team Brazil” pois foi iniciado por uma brasileira (que quase não tem jogado pois torceu o pulso ou alguma coisa assim).

É engraçado como até em jogo de vôlei de praia o jeito dos australianos se comportarem é diferente dos brasileiros.Tenho a impressão que no Brasil somos mais competitivos. Eu sinto que aqui na Austrália o jogo rola muito mais na brincadeira, um sacaneia e faz piadinha o tempo todo, enquanto no Brasil me parece mais sério, o pessoal quer jogar e se esforça pra ganhar. Aqui não vejo todo esse esforço, o jogo é mais de farra (o que às vezes me irrita um pouco, poderiam levar mais a sério). Por exemplo, quando um jogador do time adversário saca bem, alguém fala do time fala “nice serve” pro jogador do outro time. Ah, fala sério, motivar o outro time? No Brasil geralmente as pessoas falam pro próprio time “se liga aí galera”. Também acho que rola mais comunicação no Brasil (tipo aqueles berros “minhaaa” falando que a bola é minha – sai de perto). Aqui rola aquele “deixa que eu deixo” direto.

Outra coisa que aqui é diferente é que não rola aula de vôlei como eu tinha no Rio. No Rio eu pagava 90 reais por mês na Escolinha do Betinho, lá no Posto 11, e podia jogar de segunda a sexta-feira, de 19.30 às 21.30 da noite. Meu horário mesmo era de 19.30 às 20.30, mas poderia ficar e entrar em algum time até às 21.30 se quisesse. O legal é que tínhamos 30 min de treino: treinava manchete, ataque, fundamentos do vôlei, como fazer isso e aquilo... e a última meia hora a gente jogava livre, sempre jogos de duplas. Aqui não – pelo menos ainda não encontrei esse esquema. Aqui você paga 10 dólares por um jogo de 45 minutos com quatro pessoas em cada time e sem treino. Facada né?! Ah, e o detalhe mais importante é que não rola a praia do Leblon e uma água de coco após a partida, mas é melhor nem entrar nesse assunto...


Esqueci de comentar que aqui na Austrália não rola ver o Chico Buarque andando ao lado da quadra...

Mudando mais uma vez de assunto: no domingo que passou foi o ANZAC Day aqui na Austrália. Ah, antes de entrar nesse assunto, vou contar uma coisa pra vocês: quando um feriado na Austrália cai no domingo ele é automaticamente transferido para a segunda-feira. Ou seja, você nunca perde um feriado. Segunda passada não trabalhei por que domingo foi feriado. Bom né?

ANZAC Day

Mas voltando a falar sobre o ANZAC Day, que cai em todo dia 25 de abril, segue um pequeno resumo tirade do Wikipedia:

Anzac Day is a national day of remembrance in Australia and New Zealand, and is commemorated by both countries on 25 April every year to honour members of the Australian and New Zealand Army Corps (ANZAC) who fought at Gallipoli in Turkey during World War I. It now more broadly commemorates all those who died and served in military operations for their countries. Anzac Day is also observed in the Cook Islands, Niue, Samoa and Tonga.

Resumindo muito, o dia 25 de abril celebra o aniversário da primeira grande operação military combatida pelos ANZACs na Primeira Guerra Mundial. Pra quem não sabe, Anzac significa Australia New Zealand Army Corps que seriam os soldados da Austrália e Nova Zelândia - naquela época o exército dos dois países era um só. Atualmente o país celebra a vida (e morte) de todos os soldados que morreram em todas as guerras que a Austrália já participou, que foram muitas. Ou seja, esta é uma comemoração bem patriótica com marchas, passeatas e discursos de veteranos de guerra ou de seus filhos e netos contando como eles são orgulhosos do que seus pais/avós/etc fizeram pelo país durante a primeira Guerra. Nesse link você pode conferir como foi a comemoração em Brisbane. No domingo escutei o barulho de jatos no ar, aqueles aviões voando baixinho soltando fumaça, mas foi só. O feriado eu passei mesmo foi curtindo uma praia em Gold Coast.

Esse post foi um pout-porri de assuntos né. Em breve escrevo mais. Alguma sugestão de assunto?


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Entrevista: Sonya, uma australiana que ama o Rio

Conheci a Sonya Edith Francis quando eu estava trabalhando como garçonete em um restaurante italiano. Estava servindo uma mesa enorme com cerca de 20 pessoas que não paravam de falar, e uma das minhas tarefas era contar quais eram os pratos especiais do dia. Com o meu jeitinho bem sutil, gritei bem alto um “hello all, I’ll let you guys know what are the specials of the day” e comecei o meu discurso de dois minutos recitando os cinco pratos especiais do dia (aliás, cada uma que já passei nessa Austrália...). Pois bem, após falar os especiais, essa menina me chama e vem falar comigo com um sotaque bem gringo “oi, você é brasileira?” “sim, sou” “já morei no sul do Brasil, amo, lá é muito legal”. Conversa vai, conversa vem (sim, trabalhar como garçonete tem dessas coisas – cá entre nós, muito melhor conversar com clientes e conhecer pessoas novas do que servir comida e aturar chef italiano grosso) e assim descubro que a Sonya namora um amigo meu, o Tato. Mundinho pequeno esse...

Depois desse episódio do restaurante acabei a encontrando em algumas ocasiões, ainda aqui na Austrália, e tivemos algumas conversas. Nesses bate papos ela me confessou que o maior desejo dela, sonho mesmo, era voltar a morar no Brasil mas dessa vez, no Rio de Janeiro. E não é que ela foi mesmo, na cara e na coragem? E assim ela está, vivendo no Rio como professora de inglês e tradutora. Na Austrália ela era Consultora de Recrutamento de Recursos Humanos.

Sonya tem 28 anos, nasceu e cresceu na pequena cidade de Townsville, no norte do estado de Queensland, é descendente de indianos e ingleses e já mora há mais de um ano em Copacabana. E nem pensa em voltar para a Austrália. Aqui ela conta um pouco sobre a experiência e as diferenças entre a Austrália e o Brasil. Eu mandei as perguntas em português mas ela respondeu em inglês – eu ia traduzir, mas acho que é sempre um aprendizado para o leitor ler em inglês “australiano”. Vamos lá:

Como começou a sua história com o Brasil? (digo, quando vc se mudou para o Brasil pela primeira vez, por que, etc)
I first came to Brazil in 1999 to do a Rotary Youth Exchange Program for one year. I lived with three families in Sao Bento do Sul, Santa Catarina (South of Brazil). I was 17 at the time.

Como foi voltar pra Australia depois de morar um tempo no Brasil? Você começou a ver a Austrália “com outros olhos” (digo, de outra forma)?
The ‘readjustment’ to Australia after living for one year in Brazil was difficult to say the least. After being in such a warm and open culture, particularly living within families and being treated as a daughter of the family, I felt Australia to be a somewhat cold and individual society. I felt relationships between friends, family, colleagues etc in Australia to be very different to those in Brazil. Perhaps not worse, but different in the way people are brought up to treat others. I think the sensitivity and sincerity in the way all Brazilians treat others was the main difference. Sensitivity and sincerity is certainly something which lacks in the way Australians treat each other.

Por que você voltou pro Brasil?
Living in Brazil again was always a dream, ever since I returned after the Exchange Program. I have always loved the country, the culture and the people. This time I really wanted to experience the Rio lifestyle.

Aprender português foi muito difícil?
Learning Portuguese was not that difficult for me in the beginning. I had some luck – I was 17 at the time, I lived in a small city where German (and not English) was the second language and I went to school for 1 year, being able to learn from my school friends. These elements forced me to learn the language very quickly. I also love the Portuguese language and took it upon myself to keep improving. Now, after 10 years of being exposed to the language, I feel that to write, speak and read Portuguese at a professional level is very difficult, particularly without any formal study and or training.

O que você mais gosta no Brasil?
Oh! So much! Primarily the culture – which includes the Brazilian people, the language, the music, the food, the history.... even the bagunça! E muito muito mais! One thing I feel I need to mention here is the ‘curious’ nature of the Brazilian people. I find them to be extremely curious people who love to know everything about people from other countries and or places.

E o que você menos gosta?
The lack of education. I think it affects Brazil’s way of life and speed of progress at all levels.

Pra você, quais são as maiores diferenças entre o Brasil e a Austrália?
For me, the culture if the main difference. Australia does not have a defined culture of its own, whereas Brazil has a strong and varied culture. The nature of the people is also very different.

A violência e criminalidade do Rio afeta muito a sua vida?
I have been lucky – my life has not been affected by the violence here in Rio. Of course, I always take extra care and precautions here.

Você acha a personalidade dos australianos e brasileiros diferente ou parecida? Se acha diferente, quais são as diferenças?
This is a difficult question. There are people of all types in both countries. So, generally speaking - The relaxed and friendly way of Brazilians reminds me of Australians. The differences would be again, the warm and sensitive way Brazilians are naturally. What Australians lack in these qualities they make up for in their politeness and progressive way of thinking. Another difference is sense of humour. I think the Australian sense of humour is more sarcastic, whereas Brazilians are more literal. Finally, another difference (which I mentioned previously) is the way Brazilians are very curious and love to get to know people generally speaking. In this sense, Australians tend to be more reserved and don’t seem to take as much interest in people from other places.

Se passa por brasileira fácil né não?!

Sonya na Confeitaria Colombo, no centro do Rio.

terça-feira, 16 de março de 2010

Comida na Austrália

Vou explicar em duas palavras como é a comida típica australiana: não existe.

Sim, isso aí: não existe. Existe comida inglesa, francesa, italiana, alemã, muita comida asiática, em alguns lugares latina, americana... mas australiana de carteirinha, isso não existe não. Como esse é um país muito novo e tão multi-cultural, com gente de todos os lugares do mundo compondo uma nação, é difícil falar que qualquer coisa é tipicamente australiana. Algumas pessoas chamam de cozinha “moderna australiana” os restaurantes mais contemporâneos que oferecem um toque diferente às cozinhas de outros países. Mas ainda existe um longo caminho a ser percorrido até chamar isso de “comida australiana”. Quem sabe daqui a uns 50 anos (ou até antes) isso muda? Ou, seguindo as previsões de muita gente, a Austrália vira mesmo parte da Ásia e o mix de comidas asiáticas viraria a típica “comida Australiana”? Bem, quem viver verá.

Existem sim muitos lanches ou sobremesas (quero dizer, não refeições) como bolos e tortas que são tipicamente australianos e eu já falei sobre alguns deles nesse post. Vale lembrar que a principal refeição dos australianos é o jantar, ao contrário do Brasil que é o almoço. E café-da-manhã aqui também é diferente, como já falei nesse post.

Ah, antes de entrar mais no assunto, não se engane: o restaurante Outback (tem no Rio e em São Paulo) não oferece comida australiana e sim, americana. Nem tem Outback na Austrália e nunca ninguém viu aquela Blooming Onion.

A comida na Austrália tem, obviamente, muita influência britânica – a chamada “old school australiana” seria com: fish and chips (peixe frito com batata frita), assados (peru, frango, rosbife – quem vem das palavras roast e beef), chips and gravy (batata frita com um molho meio amadeirado), pure de batata, ervilha e milho (o povo aqui ama ervilha e milho, ama!), cordeiro (tem lamb em quase todos os cardápios). Outra coisa que eles adoram e que faz parte da cultura é, assim como no Brasil, o churrasco (lembrando que a Austrália é o segundo maior exportador de carnes do mundo atrás apenas do Brasil e que o churrasco deles tem muita linguiça, as famosas sausages).

Fish and Chips: super light né... é o arroz com feijao australiano.

O que também tem muito aqui são frutos do mar, o que não é difícil para um país-ilha onde a maior parte da população vive no litoral. O salmão da Tasmânia é um dos mais apreciados do mundo, além de vieiras, mexilhões, ostras, camarões... Camarão é um capítulo à parte, pois ceia de Natal que se preze sempre tem um balde de camarão VG cozido e frio com casca, e cada um tem que descascar o camarão que for comer (odeio esse ritual de ficar cheirando a frutos do mar, mas fazer o quê né).

Outra coisa que tem demais, em cada esquina, é algum fast food (mas nao sei se isso se encaixa na categoria "comida"): McDonalds, Hungry Jacks (o Burger King é chamado assim pois o nome ja tinha dono quando a cadeia chegou na Australia). Kentucky Fried Chicken, Subway, Domino's Pizza, Nando's (essa nao tem no Brasil mas é uma cadeia mundial com comidas que tenham frango), etc. E fast food aqui é super barato, uma promocao do McDonals (que australiano chama de Macca's) custa uns 8 dolares, enquanto no Brasil esta quase 20 reais.

Em Brisbane também tem alguns restaurantes de comida italiana mas menos do que tem no Brasil. Em Melbourne tem mais já que existe uma comunidade enorme de italianos (tem até uma rua dedicada à Itália cheia de restaurantes por lá). Tem dois restaurantes de comida italiana aqui em Brisbane que eu gosto muito (já trabalhei nos dois rsrs): o Vespa Pizza e o Arriva. A pizza deles tem a base fina e crocante como a nossa (momento parenteses: mesmo a comida sendo boa, nao va ao Arriva, aquela italianada é o povo mais grosso e sem educacao que eu ja vi na vida!).

Comida latina tem a mexicana (não muito), mas é raríssimo de encontrar alguma coisa dos outros países. Brasileira então, dificilímo (que eu saiba só existia um restaurante brasileiro em Brisbane – o Brazilian Touch – e a comida de lá era horrorosa, ainda bem que o restaurante fechou há alguns meses). Mas se quiser comprar feijao preto, Guarana Antartica, pao de queijo e otras cositas, basta ir no Pennisi na Balaclava St aqui em Brisbane e fazer em casa. Ah, e no último ano virou um pouco de moda a cozinha espanhola e abriram dois restaurantes em Brisbane, mas nada muito grande, a onda está só começando e não sei se vai durar.

Outra coisa que aqui tem muito é o famoso Kebab, que é um espetão de carne ou frango onde eles raspam a carne em pedaços e servem em um pão árabe com salada (já comi muito depois da balada na época de solteira, é uma delícia mas só Deus – ou melhor, Alá – sabem o que vem nessa carne).

A carne do kebab vem nesse espetao, o atendente raspa e a carne cai dos lados...

E assim é feito esse sanduiche.

O que tem muito por aqui, mas muito MESMO é comida asiática e suas variações (pra mim é o que salva aqui na Austrália): tailandesa, indiana, vietnamita, nepalesa, tibetana, chinesa, japonesa, tem até restaurante com comida do Himalaia por aqui. Qual é a diferença? Bem, chinesa e japonesa não vou explicar pois tem muito no Brasil e quem lê já sabe. Se bem que a comida japonesa aqui é um pouco diferente: além do sushi e sashimi de sempre que vemos no Brasil, também tem muito um formato de um sushi mais longo (não cortado) que as pessoas vão mordendo e comendo com a mão. Tem muito restaurantezinho pequeno que vende sushi no centro de Brisbane, e como é relativamente saudavel, é uma das comidas mais comuns do pessoal que trabalha em escritorio (eles pedem pra viagem e comem no trabalho ou em algum parque). Eu como esse sushi pelo menos umas duas vezes por semana, custa $ 2,20 cada um e com tres deles voce fica satisfeito.

Essa é a cara do sushi que se come com a mão e mordendo.

Quanto as outras comidas asiaticas, aqui vai uma brevissima explicacão:

Indiana: bem mais pesada e gorda, com muito curry, cores fortes, pão. Brisbane está infestada de restaurante indiano – só nessa Brunswick St, rua perto da minha casa que seria a Visconde de Pirajá de New Farm/Valley, deve ter uns cinco indianos.

Vietnamita: muitos vegetais, mais sopas com noodles, verdes. Mais leve que a Thai. Um restaurante que adoro aqui em Brisbane é o West End Quan Thanh, a comida é otima e o preco é barato.

Tailandesa: muito coco, curry e mistura de doce com salgado. O Pad Thai é o prato mais conhecido. Um dos meus restaurantes preferidos em Brisbane é o Thai on Brunswick, na Brunswick St, a dois quarteirões de casa. Pra voces terem uma ideia, custa cerca de 15 dolares cada prato (para um casal com entrada e bebida fica em 40 a 50 dolares por refeicao). Fui lá na sexta passada e ontem, segunda (acho que é o restaurante que mais frequento aqui em Brisbane), dá uma olhada em alguns pratos:

Yellow curry de frango.

Stir fry de carne.


Pedi pro Aaron, já que ele é chef, me falar um pouquinho da diferença entre a comida australiana e brasileira:

Australia doesn’t really have a traditional cuisine like French or Italian. Australia is a young, very diverse and multi-cultural country, the food here is based in other countries food. Brazilian food is traditional, derived from somewhere but they have their own peculiar food.

The majority of the menus have the same thing: three same salads (Ceaser, green and a green with something like, let’s say, a lamb or chicken), a pasta dish with meat (like Pesto chicken was a huge thing from the 90s to 2005, 2006), lamp or steak with chips and salad... Here is very standardized and if you want something different try Asian food because the rest will have very similar menus.

While in Brazil I missed affordable lamb (too expensive there), fresh seafood (he also thinks Chilean seafood is better) and Australian beef which is one of the best in the world. The food in Brazil is very simple but well done (basic presentation but the flavour is there). Portions in Brazil are larger. Pizzas in Brazil are better, they really know how to make a pizza well and they are not afraid of trying different flavours. Oh, and of course, the Pastel de Camarao com Catupiry at BB Sucos was just the best, you can't find something like it here.

Bakeries in Brazil are unbelievable. In Australia there are a few small bakeries which can be good but almost all are like McDonalds, they all use the same flour, same products. The bakers do a bakery course and think they know how to bake but there is no passion there.

Overall I think the main difference between Brazil and Australia is knowledge and ability. Australians have knowledge and don’t have ability. Brazilians in the kitchen – at least the ones I worked with – want to show they can do a good job and learn. Some Australians go to the kitchen and call themselves a chef just because they did a course. Now we have this whole generation in Australia that don’t know really how to be a chef (ele está falando do programa de imigração – que acabou de ser cancelado mas que durou uns 5 anos – que despejou milhares de “chefs” no mercado que não queriam saber de cozinha e sim, somente de visto de permanência australiano). In Brazil it seems they are more proud of the food, they learn, they take in.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Entrevista: impressões de Gisele, carioca que vive em Melbourne

Gisele Rocha é carioca, tem 26 anos e mora há três em Melbourne com o maridão australiano Luke. Quando morava no Rio ela era professora, mas sua atual ocupação é de chefe administrativa na Universidade de Melbourne. Ela é moderadora de uma das melhores fontes de informação sobre a Austrália na internet: a comunidade Aussileiros do Orkut, que participo desde 2006 quando comecei a procurar informações para vir morar aqui. Sempre lia os comentários dela e ficava bem impressionada com o seu bom-senso e paciência. Trocamos o primeiro email no início de 2008, quando pedi algumas informações (que ela pacientemente respondeu) e, desde então, sempre trocamos emails e finalmente nos conhecemos ao vivo há três meses atrás quando ela veio visitar Brisbane.

A convidei para a entrevista pois tinha certeza que ela poderia dar uma boa noção sobre a Austrália para quem não conhece (e para quem conhece também) – e eu estava certa, como você poderá conferir abaixo.

Como e por que começou a sua “relacão” com a Austrália?

Minha relação com a Austrália começou em 2000, quando uma amiga e eu recebemos na porta da faculdade um folheto da STB com programas de intercâmbio em varios países. Lembro dela falando, "Seria ótimo estudarmos um tempo lá, não acha? Praia e faculdade todos os dias, imagina!" Só lembro de ter respondido que não, Austrália não; não precisava ir tão longe e pagar tão caro para ver praias bonitas. Temos que lembrar que há dez anos atrás quase não havia propaganda sobre a Austrália no Brasil, por isso a minha observação esteriotipada do país: terra do surf, das pessoas bonitas e das praias que são palco do WCT. Depois de alguns anos o destino pregou uma peça em mim... Viajando na Argentina, conheci um menino australiano.Ficamos amigos, nos reencontramos no próximo ano e o resto, bem, o resto é história.

O que te fez mudar do Brasil para a Austrália?

A minha mudança à Austrália se deu por razões familiares. Depois de várias idas e vindas minhas à Australia e do meu então namorado ao Brasil, resolvemos que seria melhor viver no meu país. Infelizmente, não deu certo - depois de alguns meses morando no Rio de Janeiro, de onde sou, decidimos voltar à Austrália.

Quando você chegou na Austrália, você achou o país muito diferente do que você inicialmente imaginava?

Na primeira vez que vim de férias eu fui à Sydney, Melbourne, Gold Coast e Byron Bay. Lembro de não ter achado Sydney tão impressionante quanto pensei que fosse ser. Eu achei parecida com algumas cidades que tinha visitado nos Estados Unidos – tudo muito grande, espalhado, muito trânsito, pouco verde. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. Claro, achei a parte das praias linda, mas acho que as praias daqui não causam tanto furor para uma pessoa que viveu no Rio de Janeiro a vida toda - estamos acostumados com este tipo de paisagem. Depois, fui à Melbourne, de onde meu marido e sua família são. Fiquei apaixonada –a estrutura urbanística da cidade é fantástica, com várias áreas comunais, menos prédios altos, mais áreas verdes e um ar meio alternativo-chic. Não podemos comparar as praias de Melbourne com as de outras cidades na Austrália porque Melbourne está numa baía. Para ver as praias lindas de Victoria, você tem que dirigir até a Great Ocean Road (onde fica Bells Beach, por exemplo) ou então até Sorrento ou Portsea, pelo menos.

Quando vim morar, a perspectiva sobre o país mudou completamente – ainda amava Melbourne, mas a visão da cidade não era mais a de turista. Cheguei no inverno, e inverno aqui é bem frio! Para as pessoas terem uma idéia, tem estação de esqui a duas horas do centro de Melbourne. A máxima no dia é em torno dos 13 graus, mas com o vento a sensação térmica cai bastante. Enfim, foi um choque muito grande em todos os aspectos: climático, cultural, pessoal. No início tive muita relutância em aceitar que as coisas são diferentes do Brasil, questionava o porquê de tudo, me sentia frustrada. Ter que reaprender tudo, desde pegar ônibus até entender a dinâmica de relacionamentos sociais é cansativo. Mas depois de um tempo, fui me acostumando, aceitando e apreciando as diferenças e hoje me sinto totalmente integrada à sociedade.

O que você mais gosta na Austrália?

Tem várias coisas, mas vou listar as minhas favoritas:
- O respeito ao indivíduo. O australiano tem como princípio básico o “fair go”, que é definido como a chance que todos devem ter de tentar algo, e ser dado os recursos para tal. Aqui os cidadãos têm acesso à educação, cultura, lazer, saúde. Claro que temos vários problemas estruturais, mas há uma preocupação para que todos possam ter os direitos básicos atendidos de maneira decente. É uma preocupacão não só do governo, mas também dos indivíduos. A sociedade no geral preza pelo bem-estar comum e os australianos não gostam de tirar vantagem de tudo, muito menos de todos.
- A baixa diferença salarial. Com o passar dos anos tem aumentado, mas ainda é baixa se compararmos ao Brasil. Isso gera menos conflito social, menos violência, uma sociedade mais harmoniosa.
- O respeito ao meio-ambiente. Antes de uma construção ser aprovada, você tem todo um estudo do impacto ambiental que vai causar, inclusive da poluição visual. A populacão é educada para viver em harmonia com a natureza, até porque somos parte dela. Por exemplo, meu trabalho fica perto de uma área de preservação ambiental e ás vezes da minha janela vejo árvores silvestres, raposas, entre outros animais. E olha que estou só a dez minuto do centro de Melbourne!

E o que você menos gosta?

Vamos lá:
- Sistema de transporte. É bom se você mora perto da estação de trem ou parada de bonde, caso contrário você precisa de carro para tudo. Não gosto de ter que depender de carro, mas às vezes tenho que ir à lugares que não têm acesso à transporte e sou obrigada a dirigir.
- O preço dos imóveis. Acho proibitivo. Parece que os australianos vivem em função de pagar hipoteca. Os salários são maiores, mas ainda sim uma pessoa sozinha num salário mediano não consegue pagar a prestação de um imóvel de dois quartos, por exemplo.
- Distância para outros países. Do Rio você está na Argentina, Peru, Chile, Uruguai a algumas horas de voô. Aqui, tirando Nova Zelândia, pelo menos seis horas para algum outro lugar!

O que você mais sente falta do Brasil?

Além da família, comida e amigos, sinto falta da paixão das pessoas. Sim, nós latinos somos muito “inflamados” e mostramos isso nas nossas interações sociais. Uma discussão entre amigos parece uma briga para australianos – eles não entendem que defendemos nossos pontos-de-vista com unhas e dentes e que não há problema algum com isso. Aqui as pessoas ficam mais em cima do muro, o conflito não é algo muito apreciado pelos australianos. Às vezes eles nos acham “opinionated”, ou seja, expomos até demais nossa opinião quando não deveríamos. Também sinto falta da musicalidade – respiramos música, faz parte de nós. Você vai à festa de aniversário de criança e muitas vezes não tem nada tocando.

O que o Brasil pode aprender com a Australia e vice-versa?

O Brasil poderia aprender com a Austrália a ter relações sociais e trabalhistas mais igualitárias. Muitas vezes eu acho engraçado brasileiros que vêm para cá e não se importam em trabalhar de faxineiros, babás, motorista (ou com os próprios eufemismos usados por eles: cleaner, baby-sitter e driver, pois soa menos braçal) já que a remuneração é decente e são tratados de igual para igual. Mas no Brasil, essas mesmas pessoas jamais pensariam em pagar R$25/hora às suas faxineiras, por exemplo. E não conseguem perceber que toda essa exploração que temos no nosso país gera instabilidade social, e acaba desencadeando violência.

Já a Austrália poderia aprender a ser mais flexível – às vezes as regras são seguidas à risca, e tudo o que é demais pode ser ruim. E também apreciar mais a companhia dos amigos e família; ao meu ver o foco é tão grande em trabalho, acúmulo de bens, que o lado social fica um pouco de lado. Por último, os australianos poderiam se abrir mais com os amigos e família – vejo que muita gente fica com medo de se abrir emocionalmente e ser visto como “fraco”.

Você pensa em voltar a morar no Brasil? Se sim, quando?

É uma pergunta difícil. Muitas vezes eu sinto vontade, principalmente quando vejo fotos de amigos brasileiros que retornaram e estão bem, felizes. Porém, entendo que estar longe ajuda a criar uma realidade que não existe, onde tudo é perfeito; recentemente visitei minha família e senti que a minha cidade (Rio) não condizia mais com os meus planos de vida, que ela não poderia proporcionar o que desejo: paz, segurança, estabilidade profissional. Hoje corre tudo como o planejado, então não tenho planos de retornar ao Rio num futuro imediato. Logo eu, que há dez anos atrás se recusou a fazer um intercâmbio na Austrália...

Gisele na Flinders Lane, rua no centro de Melbourne.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Ficar ou não ficar, eis a questão‏

Às vezes sinto a maior saudade. Do nada ela bate. E bate, viu. Parece um daqueles ventos quentes de verão que abrem-alas pra uma apocalíptica tempestade. Essa é aquela danada de saudade que chega e já se espalha - ela dói, é pesada, e me faz pensar se é isso mesmo que eu quero, se essa é a escolha da minha vida. Ficar longe, muito longe, longe da minha cultura, da minha língua, do meu sorriso. O meio-de-campo de emoções se embola e dá aquela vontade louca de falar "que se foda" e pegar o primeiro avião. Encontrar a minha terra, o meu céu... Começo a viajar sozinha e a imaginar, aos poucos, a ansiedade da espera para se chegar ao meu, meu tão sonhado Rio, a vista das montanhas lá de cima da janelinha do avião, suas praias, seu mar. A recepção no aeroporto, o caminho pra casa, os encontros.

Ah, se eu fosse maluca...

É, mas calma que eu não sou não, a vontade aparece mas eu sempre acabo despertando desse estado entorpecido (que dura exatos 7 segundos - eu já contei). O que eu tenho é que aprender a domesticar a minha mente que ainda não sabe se comportar e às vezes transvia para esses pensamentos gostosos e insanos.

Olho em volta e vejo que isso - que de uma forma, continua sendo um sonho; é real. Penso no que tem aqui, no presente, onde estou. E no aproveitar, curtir, me entregar. Aqui mesmo, em volta, no mundo palpável, físico. O que tem de bom, por que vim, por que decidi isso, e assim começo a pensar naquele meu Rio de outra forma e lembro dos truques da nossa imaginação, que fazem a gente idealizar uma história, um lugar.


Às vezes construo o seguinte diálogo criando os personagens na minha cabeça representando o Brasil e a Austrália:

- Hummm, esse seu Rio aí, que que tem nele? Tem coisa boa?
- Tem sim senhor.
- Tem coisa ruim?
- Também tem sim senhor, diria que até bastante.
- Tem coisa muito boa?
- Putz, tem coisa muuuito boa!!! Muitas coisas muito boas, aliás.

Já com o outro personagem é assim:

- E aqui, nesse país longe, diferente? Tem coisa boa?
- Tem sim senhor.
- Tem coisa ruim?
- Hummm. Tee-... hummm, olha senhor, coisa ruim, assim ruim ruim, nao sei... não não, tem coisa ruim sim, mas não é ruuuim não sabe? É ruim mas não é ruim. Tendeu?
- Hum, mais ou menos. Não é tão ruim assim, você quer dizer?
- É. Acho que é por aí.
- Tá, ok, ok, confuso isso hein. Vamos mudar pra coisa boa. Tem coisa muito boa?
- Tem coisa boa sim senhor.
- Não falei boa, falei muito boa. Tem coisa muito boa?
- Hum, tem.
- Só isso?
- É, ué, já falei que tem.
- E a empolgação, cadê? Voce tá falando de coisa muito boa lembra? É isso?
- Hum, é. Tem. Tem sim.

Às vezes é assim que me sinto. Um amigo uma vez me falou uma frase que eu não vou esquecer nunca: "Verinha, enquanto a Austrália é novela das 6, o Brasil é novela das 8". Pros 3% de brasileiros que não veem novela, eu explico: as novelas das 6 são aquelas com cenários lindos, tudo limpo, perfeito. Todo mundo arrumado, bonito, com pele lisa sabe? Geralmente é novela de época. As ações são poucas, geralmente uma história romântica, fofocas inocentes dentro de casa, sorrisos, gente simpática e claro, um galã estilo Disney e o casal que se casa no final e assim são felizes para sempre.

A novela das 8 não. A novela das 8 tem ação, tem o mocinho cheio de falhas geralmente mulherengo e safado e que tá pegando a secretária, mulheres loucas urbanas e obsessivas que destratam seus funcionários que trabalham naquela mega-corporação da família, viagens para a Europa no início da novela, alguém que é assassinado no final, o mendigo-gente-boa que toca um sambinha na rua, a história da empregada pobre, a história da patroa rica - sempre, com muita, mas muita ação essa novela das 8.

Engraçado que pra mim essa comparação se encaixou perfeitamente. Assim como o Tom Jobim que falou aquela famosa frase: “Morar no Brasil é uma merda mas é bom, morar nos EUA é bom mas é uma merda.”

Outra seria aquela do motorista de bugue nas dunas de Natal: "E aí dona, quer com emoção ou sem emoção?". O Brasil é com emoção. Ah, devo falar que eh com tanta emoção que parece até que você vai cair do bugue no meio caminho - em compensação, você se diverte que é uma beleza.

Por que eu tô falando isso?

Devo confessar que a minha primeira idéia era sentar na cadeira para escrever um post sobre o que é ser "imigrante" mas não tem jeito, antes de entrar na tática eu tinha que colocar o dedo na principal ferida – por que meu amigo, se você não está preparado emocionalmente pra isso, é melhor pensar com mais calma afinal esse é o primeiro ponto: saudade, indecisão, pensar lá e aqui. Querer voltar, querer ficar.

Claro que isso não acontece o tempo todo, a gente acaba se integrando à rotina australiana e tem dias (às vezes, semanas) que nem se pensa no Brasil, família e amigos. Mas por mais que você esteja integrado, você vai sempre pensar no seu país – pensar só não, mas idealizá-lo usandos lentes cor-de-rosa e lembrando, na maioria, das coisas boas. Por isso é bom parar para lembrar das coisas ruins também, se não você pira. E tem coisa ruim sim, como falei antes, tem muita. Infelizmente.

Bem, aqui eu estou falando de mim: conheço gente que pensa ao contrário, quando lembra do Brasil, lembra de assaltos, pobreza, insegurança. Só lembra das coisas ruins. De repente era melhor pensar assim, mais fácil. Mas não consigo. Essa não seria eu, não seria a Verinha que, apesar de tudo, ainda ama o Brasil. Quanto a essa indecisão a que me refiro, conheço de tudo: brasileiros que nem pensam em voltar, brasileiros que nem pensam em ficar... Mas a maioria quer ficar na Austrália por um tempo e depois voltar para o Brasil: seja em dois anos, cinco, dez ou quando se aposentar. Se isso vai acontecer mesmo, ai eu jah nao sei. Mas não tem jeito, você não esquece nunca.

Quando você mora fora tudo é novo. Você não tem uma história naquelas ruas, o verde das plantas tem um tom diferente, mais que um idioma, o jeito de se expressar é diferente, de comer, de celebrar, de negociar, de comprar. Quando nós brasileiros lembramos das aulas de História da quinta série, pensamos no Pedro Álvares de Cabral e no Tratado de Tordesilhas. Eles não. Os símbolos, os sinais mudam diferentes. O jeito de fazer amigos, o modo de conseguir trabalho... fora a distância da familia e dos amigos de longa data que nunca, nunca serão substituídos.

Mesmo com tudo isso, fico admirada como as qualidades fundamentais de nós, humanos, seres complexos e mutáveis. Por que, apesar disso tudo no final "a gente se vira". Se vira sim, aprende, quebra a cara, se dá bem, enfim, aprendemos com os nossos erros e acertos. A gente insiste por que, mais do que emoções limitadas à nossa cabeça, o que todo mundo quer é viver bem.

Vejo, no caso de vários brasileiros, que mesmo com tudo isso a vida aqui na Austrália ainda é melhor. No final das contas, o que compõe, digamos, 70% da nossa vida é aquela rotininha lá do dia-a-dia: trabalho, casa, esperar o final de semana, final de semana, casa, trabalho etc. E por mais que você tenha um certo “conforto” (metaforicamente falando) no país de origem, às vezes você não tem qualidade de vida ou perspectiva de ter uma vida melhor (agora conforto esse economicamente falando).

E essa é uma das grandes atrações da Austrália. Apesar de parecer ter falado que aqui não tem coisa muito boa, devo voltar atrás e falar que tem, sim, principalmente as possibilidades que se abrem em vários quesitos. Poder viajar mais, absorver uma nova cultura, começar a ver o mundo – e principalmente, o Brasil – com outros olhos. Aprender, se aventurar, odiar, sofrer, amar. Sair da zona de conforto.

Eu sei que tem gente que não troca a vidinha de sempre no Brasil por nada – isso aí, cada um tem a sua escolha. As pessoas são diferentes, precisam de experiências diferentes. Pra mim a Austrália foi e continua sendo uma experiência única, inesquecível. Certamente saí da minha zona de conforto ao tentar a vida em outro país. Já me perguntei diversas vezes se fiz a coisa certa. Fiz sim, só eu sei que se eu não tivesse vindo morar fora seria uma eterna frustrada.

Sair da zona de conforto.

E entrar nela também.

O triste do nosso país é que ele não te dá muito liberdade: liberdade não é poder beber cerveja na praia, pra mim liberdade muito maior é poder se arriscar na vida e saber que você não vai estar na merda quando voltar. Que vai ter um emprego, que vai ter dinheiro, que não, nunca você vai ficar na sarjeta. Aqui não rola isso por que qualquer emprego que você tenha você ganha dinheiro. Grana boa, pra viver uma vida acima do razoável.

Alguns brasileiros que conheço são loucos pra voltar a morar no Brasil mas não voltam. A primeira pergunta que passa pela cabeça deles é: “voltar pra fazer o que?”. Ficam com medo de passar perrengue no Brasil, apavorados pela incerteza, pela dificuldade em encontrar um emprego que pague bem, que faça eles terem uma vida decente, fora a inseguranca que pesa muito. E assim o verde brasileiro se torna menos verde, as praias, menos bonitas, o povo mais triste. E aquele sonho que eu tive lá no começo muda.

De uma certa forma, eu não posso reclamar muito pois nunca tive dificuldade de encontrar emprego no Brasil. Mas não tenho pressa de voltar. Sinto falta, sinto saudade, mas ainda tenho um bom tempo aqui na Austrália. Não quero só viver, quero navegar, explorar, ver mais, conhecer mais. Tenho certeza que o meu Rio estará sempre lá, de braços abertos e sorrindo pra mim.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Você sabe que é um brasileiro na Austrália quando...

  1. Mesmo achando que está abafando com o seu melhor inglês, na hora que você fala “Hi how are you” alguém te pergunta de volta: “Hi where your accent come from?” (“De onde vem o seu sotaque” – uma forma sutil e bem australiana de perguntar de que país você vem);
  2. Quando lê uma porta com uma placa escrito “push”, você a puxa ao invés de empurrá-la;
  3. Você não entende por que todas as carnes e linguiças de um churrasco são feitas de uma só vez, e quando chega a hora de comer, já está tudo frio;
  4. Toda vez que você vai à praia, morre de saudades da cervejinha gelada, sorvete, milho cozido, água-de-coco etc sendo vendidos;
  5. No caso das mulheres, na praia você é a única a usar um biquini pequeno e acha que os biquinis australianos se parecem com fraldas (vale para calcinha também);
  6. Você é a pessoa mais animada do escritório em que trabalha: fala oi quando chega, oi quando vai almoçar e tchau quando vai embora;
  7. No trabalho, você não entende como os australianos conseguem almoçar na mesa, de frente pro computador, e odeia o cheiro de comida que fica no escritório na hora do almoço;
  8. Também no trabalho, é o único que escova os dentes depois do almoço;
  9. Você não consegue comer Vegemite de jeito nenhum e não se convence que isso faz bem pra saúde;
  10. Você aprende a viver em um país com leis e fica com vergonha do “jeitinho” brasileiro;
  11. Ainda não aprendeu a usar abridor de latas australiano;
  12. Não se acostuma a ter que levar sua sacola “verde” pro supermercado ou pagar por cada saco plástico usado;
  13. Mesmo nascendo em um dos países com a maior diversidade de pessoas do mundo, você identifica um brasileiro de longe;
  14. Você passa a usar cinto de segurança no banco de trás do carro e começa a não entender por que no Brasil isso ainda não é obrigatório;
  15. Você morre de saudades de pão fresquinho da padaria;
  16. Acha muito estranho não ter gente nas ruas, principalmente nos bairros mais afastados e se pergunta “meu Deus, cadê esse povo?”;
  17. Você tem medo de andar em uma faixa para pedestres pois acha que o carro não vai parar pra você;
  18. Pra você, hotel é lugar para dormir e não pra beber;
  19. No trabalho, você se sente meio culpado por sair as 5 já que estava acostumado a sempre sair tarde;
  20. Você acha estranho fast food ser tão barata e frutas e verduras, tão caras;
  21. Você não consegue se comunicar com 80% dos Customer Services e Call Centers por que não entende o sotaque indiano;
  22. Nunca entendeu por que os shopping centers fecham as 5:30 da tarde e se pergunta se os australianos não querem fazer dinheiro;
  23. Se acha o máximo por falar duas línguas (três vai, portunhol também conta), já que a maior parte dos australianos só fala uma;
  24. Adora finalmente poder morar em uma casa, e não em um apartamento;
  25. Acha que australiano fala “sorry” demais;
  26. Tem ódio mortal das moscas australianas;
  27. É a pessoa que fala mais alto em um restaurante, no ônibus, em uma loja, em qualquer lugar;
  28. Ama poder sair da praia e encontrar um chuveiro de água doce e um banheiro público limpo e gratuito;
  29. Não entende porque no trânsito, os carros ficam um atrás do outro em uma mesma fila enquanto a outra fila ao lado está completamente vazia;
  30. É o único que chega no bar e tenta chamar a atenção da atendente falando “hey”.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Australia Day e Coisas Truly Australians

Ontem, dia 26 de janeiro, foi comemorado o Australia Day. Esse foi o dia em que o tal Capitão Arthur Phillip comandou a primeira caravana de 11 navios recheados de prisioneiros que chegaram da Inglaterra para efetivamente colonizar a Austrália. Nesse dia o que veio a ser o primeiro governador de New South Wales, que foi o primeiro estado australiano, chegou a então colônia inglesa. Mas foi só em 1994 que o dia virou feriado nacional, e com certeza esse é o dia em que os australianos mais demonstram o seu orgulho pelo país. É claro que existem controvérsias sobre o motivo dessas celebraçoes todas afinal, imagina só, o Australia Day comemora uma data em que essas caravelas apenas deram o arremate final a uma das maiores dizimações da face da terra: a dos aborígenes pelos colonizadores ingleses. Mas não vou entrar nessa polêmica agora e vou falar das comemorações...

O típico Australia Day é comemorado com um churrasco e com as pessoas vestidas com qualquer coisa que tenha a bandeira ou as cores australianas. Esse também é um dia muito especial para aqueles que resolveram se naturalizar australianos já que, tradicionalmente, há várias cerimônias de entrega da “Cidadania Australiana” para os imigrantes em diversas cidades do país (um dia eu terei a minha!). Também existe uma premiação anual muito prestigiada do “Australian of the Year".

Na semana passada toda os jornais só falaram sobre o Australia Day, existe um site dedicado exclusivamente ao assunto (vale a pena dar uma olhada) e também milhares de pesquisas que ressaltam o “espírito australiano” ou o que significa ser um verdadeiro aussie (ou ozzie). Por outro lado, infelizmente às vezes acontecem algumas confusões de alguns idiotas racistas que, ao invés de entrarem no clima de paz e união, entram na onda de racismo e briga contra estrangeiros, provavelmente alimentados pelo álcool.

Para comemorar a data vários jornais e revistas fizeram uma lista de marcas e coisas verdadeiramente australianas (truly Ozzie). Vou pegar esse bonde e colocar algumas aqui:

Qantas (cia aérea)

Quem veio ou procurou passagens para vir a Austrália já se deparou com a Qantas – aliás, não é difícil esquecer o logotipo da empresa, vermelho com um canguru pulando no meio. Para quem não sabe, Qantas significa Queensland and Northern Territory Aerial Services Ltd (lembra? Queensland é o estado onde Brisbane é a capital, e Northern Territory é outro estado australiano). Atualmente essa companhia aérea voa para todos os continentes do mundo e, até ano passado, o trajeto Brasil-Australia e vice-versa parava em Santiago, mas agora a conexão mudou para Buenos Aires.

Pavlova

É uma torta com cobertura de suspiro e frutas. Mas existem controvérsias e os neo-zelandeses falam que é uma invenção deles e não dos australianos (assim como o Russel Crowe que os australianos teimam em falar que é aussie, mas na verdade nasceu na Nova Zelândia). A torta é boa, mas não é a minha preferida.





Torta de carne (a famosérrima Meat Pie)


Enquanto nós brasileiros temos bolinho de bacalhau e coxinha de galinha, eles tem a meat pie que é tipo uma torta pequena de carne – mas tem vários outros recheios como frango com queijo, carne e bacon, etc. Parece bastante com a nossa empada com um tamanho um pouco maior, mas é menos farofenta e me parece ser mais gordurosa.





Lamington


Bolo de baunilha coberto de chocolate e raspas de coco. Chamado assim por causa do Barão de Lamington, que foi governador de Queensland entre 1896 e 1901.





Green and gold


Acho que todo mundo já sabe que as cores oficiais da Austrália também são o verde e dourado (quem nunca viu o time de futebol australiano jogando na Copa do Mundo ou qualquer australiano em alguma Olimpiada?). As cores tornaram-se oficiais em 1984 pelo governador geral da Austrália, e são as cores de uma árvore muito comum por aqui, a Wattle Tree. Outra teoria diz que o verde vem da natureza e plantas - assim como o nosso - e o dourado, do outback australiano.


Vegemite

Já comentei sobre Vegemite no post sobre as manias dos australianos, e uma delas certamente é essa pasta preta de levedura. Acho horrível! Mas o que era para ser um ícone australiano na verdade virou americano, já que a marca Vegemite foi comprada pela multinacional Kraft Foods.








Tim Tams

Um biscoito de chocolate que os australianos amam. Tem até um jeito bem ozzie de se comer: primeiro, morda os dois cantos, um de cada lado. Em seguida, use-o como um canudo para beber o café. O calor do café vai derreter o chocolate e ele vai ficar parecendo uma calda de chocolate quente (faz a maior bagunça, mas é uma delícia).




Churrasco Australiano


Assim como no Brasil o clima australiano permite às pessoas relaxarem no quintal de casa com uma refeição feita em um grill. Aliás, a churrasqueira mais comum aqui é com grill e a gás, e não com carvão como a nossa (algumas pessoas também usam churrasqueiras com carvão, mas poucas). Tudo para australiano é motivo para ter um churrasco (e beber, claro), e no Australia Day a maior tradição de todas é justamente fazer um.



Caminhonete (ou Ute)

Sabe aquele carro com caçamba de caminhão e frente de sedã? Dizem que nasceu na Austrália em 1933 quando uma australiana escreveu uma carta para o Gerald Ford dizendo: "Can you build me a vehicle that we can go to church in on Sunday without getting wet, and my husband can use it to take the pigs to market on Monday?"
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Bundaberg Rum

Se tem alguma coisa nessa vida muito, mas muito australiana mesmo é o Bundaberg Rum, produzido na cidade de mesmo nome aqui no estado de Queensland, a 380 km ao norte de Brisbane. Não por acaso Bundaberg (a cidade) tem uma grande produção de cana-de-açucar, o que facilmente gera os 37% de puro álcool dessa bebida que cai como uma luva na cachaceira alma australiana. E, pior, eles adoram misturar esse rum com coca-cola (irc, mais doce impossivel!) - aliás, voce pode encontrar latas de "mixed drinks" já prontas sendo vendidas nas BWS (aquelas lojas que vendem bebidas alcoolicas - se voce ainda nao conhece, leia esse post). Segundo o site, Bundaberg Rum é Truly the Famous Aussie Spirit (repara no trocadilho: spirit, alem de espirito, significa bebida "quente" como whisky, vodka, tequila, etc).

domingo, 24 de janeiro de 2010

Entrevista: Mais um Australiano fala sobre o Brasil

Jon McNee é australiano de Mackay, uma cidade ao norte do estado de Queensland com 85.000 habitantes, onde a economia gira em torno das minas de carvão e do açucar. Ele veio morar em Brisbane para fazer faculdade mas também já morou em Perth, do outro lado da Austrália, e no Rio de Janeiro. E é por isso que eu o escolhi para essa entrevista.

Em 2007 ele morou durante oito meses no Rio a trabalho, e ficou em Ipanema, perto da Praça General Osório. Jon trabalha na área de Saúde e Segurança do Trabalho em uma grande empresa de mineração e mesmo aqui na Austrália ele sempre teve que lidar com muitos brasileiros – ou seja, antes de ir para o Brasil ele já conhecia um pouco sobre nós.

Jon é bem direto e não tem papas na lingua. Fala o que tem que falar e quando for pra falar, o que o torna um entrevistado ainda mais interessante.  

Jon no Corcovado.

(*) A entrevista está em inglês, mas se alguém quiser eu traduzo com o maior prazer – basta comentar aí embaixo.
 

What were your expectations about Brazil before you got there?
This is a hard questions to answer, as I really tried to keep my expectations neutral. A way of trying not to be disappointed and ensuring that no preconceived ideas would hold back my ability to assimilate to the country. Things that I expected was of course beautiful women, great weather, sensational beaches and jungle etc. I also knew that Brazil was a “semi-developed” country due to dealing with Brazilians at work and from this I would see the dichotomy people; the smart educated well-off and the uneducated and poor.

People wise I generally expected them to be friendly due to my dealings with Brazilians here in Australia.  

Did Brazil (place and people) meet your expectations or was it very different than you initially thought?
Yes and no. Living in Brazil was easier than expected although I did miss a lot about Australia such as cricket and some foods but in general I found the people to be very friendly and helpful. In fact I am still being helped today be people I met in Brazil.

The traffic was a disaster and I was still coming to grips with the bus etiquette of Brazilians who on one hand are very laid back and unhurried to being almost frantic when coming up to their next bus stop.

I was also surprised by how close the rich and poor lived. I also found Brazil to be better assimilated to other races than Australia, but I found that Brazilian were more status driven than Australians especially in Rio.

However I was disappointed to find out how business in Brazil ran. I found some people in business to be very closed minded about things especially those who are educated but with no other world experience. They generally saw things as “the Brazilian way is best” and as such tried to put in place solutions without considering other cultures. I also found that work was very structured, formal and political in nature. Where if you went outside of this process you were castigated. I also found that people were more invested in ticking boxes rather than the actual results of those boxes…  

What did you like the most about Brazil?
The weather, food, lifestyle and general feel of the country. I really struggled in a personal sense getting used to being back in Australia. I intend to go back to Brazil at some stage in my life.  

What you liked the less?
Bus etiquette. It seemed to be so unbrazilian. Also the formal structure of business.  

What are the main differences between Australia and Brazil?
Being straight to the point especially in business matters. Formality of business and informality of life in Brazil and the informality of business and formality of life in Australia. Eg. Basically you can drink beers anywhere in Brazil where as you can’t in Australia. Where as in Brazil, everything must be done as per process even though it is stupid and wrong.  

How did the violence/safety bother you while you were there?
Not at all, but I did live in a nice neighbourhood. I was always acutely aware of socio-economic issues that faces Brazil and I planned for it (except for that one night in Copacabana…..). I always took cab even for short distances at certain stages of night, I dressed down (which for me was rather easy) and I never flouted my money, and I never went into bad areas. For me I treated it like being in the wrong suburb of Brisbane; you are perfectly safe as long as you watch what you did.  

Biggest challenge in Brazil?
The biggest challenge in my time there was the language difficulties, as even those who can speak English couldn’t understand a word I said, which made communication very hard. I also found it very hard to learn Portuguese. Something about those bloody vowels and sao words.  

Do you think Australian and Brazilian people are very different in their personalities? If so, what is different?
Yes. Australians and Brazilians are different, although we are both recognised for being laid back countries. I believe it stems from our history with Australians being English while Brazil is Portuguese-latin based. I find Australians are more direct and not as friendly in Australia (even though I consider us being friendly people) where as people in Brazil are not as direct but more friendly in nature (for me it was somewhat unnerving every one treating you as a friend). Australians love a drink as do Brazilians however Brazilians like the socialization of drinking more. However I do think that our personalities lend to Australians and Brazilian getting on as we both like to have a good time.  

Is there anything Brazil can learn from Australia and vice-versa?
Meeting each other half-way in life and business.