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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Curtas sobre a Copa na Austrália


Não vi


O jogo do Brasil contra a Coréia começou às 4:30 da manhã aqui na Austrália. Eu? Dormi e só acordei pra ir trabalhar. Isso mesmo, não vi o jogo (confesso que coloquei o despertador para tentar ver, mas a cama estava tão gostosa, estava tanto frio... não rolou). Aliás, todos os jogos do Brasil serão às 4:30 da matina na hora local, com exceção do jogo contra Portugal que será meia-noite. Saco.

E a Austrália hein?!

A Austrália, coitada, como sabemos levou uma bela goleada da Alemanha (4x0) no seu jogo de estréia. No dia seguinte eu até tentei zoar alguns australianos, mas ninguém entrou na brincadeira. Ou eles realmente não ligam para a Copa, ou não queriam falar sobre o assunto.

Acho que não ligam mesmo.

Copa quem?

Não, aqui não tem bandeirinha da Austrália pelas ruas, pessoas com camisa da seleção Australiana, e muito menos gente parando de trabalhar pra ver os jogos (até por que os jogos ou são às 9:30 da noite, ou a meia-noite, ou 4:30 da matina). Em um ou outro lugar as pessoas falam da Copa, mas muito pouco, muito pouco mesmo.

Fui em um barzinho na sexta a noite, dia da abertura da Copa, e enquanto passava a Copa no telão a galera nem olhava... só queria saber de dançar e beber. Só eu e duas brasileiras ficamos de olho no telão.

Em terra de cego...

Até hoje sai nos jornais o gol que a Austrália fez contra o Brasil na Copa da Alemanha em 2006 (foi o primeiro jogo do Brasil, deu Brasil com 3x1 é claro). Juro, foi o momento de ouro deles na Copa – imagina, fazer o primeiro gol do jogo e contra o Brasil?! Me falaram que quando os australianos estavam vendo o jogo em 2006 e a Austrália fez o primeiro gol, a galera ficou emocionada e não esquece aqueles momentos. Ainda bem que durou pouco.

Transmissão dos jogos

A única emissora que passa os jogos da Copa é a SBS, que é um canal mais “alternativo” (tipo a TV Brasil daí mas ao contrário, focada nos imigrantes e pessoas de outras nacionalidades - falei rapidamente sobre ela no final desse post). Os canaizões de TV só falam sobre a Copa durante os jornais, e mesmo assim, rapidamente. Não é como a Globo que parece que não tem mais assunto durante a Copa.

Enquanto isso, o Rugby...

Hoje tem State of Origin – o jogo entre Queensland e New South Wales – de novo. Nos intervalos dos jogos da SBS só passa anúncio do State of Origin. Aí sim que a galera para (hoje mesmo no trabalho já vi uns três com a camisa grená de Queensland).

E no Brasil?

Meu pai me falou que no Brasil não tá essa empolgação toda em relação a Copa como era nos anos passados. Ele falou que não vê mais gente fechando as ruas, muro pintado, aquela empolgação que a gente fazia... É verdade?

Confessionário

Confesso que também tô desanimada com a Copa. Quando eu era criança, adolescente, até a Copa de 2002 eu me empolgava mais. Na de 2006 eu já não ligava tanto, essa agora... sei lá. Desanimei um pouco. Será que sou só eu?

No mais...

BRASIL!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Brasil em Brisbane

Em 2005 quando comecei a pensar a morar em Brisbane, eu achava que quase não tinham brasileiros por aqui. Afinal, que cidade é essa? A maior parte dos brasileiros conhece Sydney e sua über-famosa Ópera House, e muitos já ouviram falar de Melbourne e sua semelhança com Londres. Sobre Brisbane eu tinha pouco ouvido falar - o que sabia era, inicialmente, pelos amigos australianos do meu irmão que moravam na cidade e iam todos os anos para o Rio. Depois, com a mudança dele para cá em 2004 eu obviamente comecei a ouvir falar mais, mas nunca pela imprensa ou grande mídia.

Quando finalmente decidi vir para Brisbane, conheci uma menina (a Tati - será que ela lê o blog?) que tinha morado seis meses em Brisbane em 2003. Foi a única brasileira que conhecia até então que já tinha morado na cidade. E aí veio a bomba: “Verinha, Brisbane é lo-ta-da de brasileiros”. Como assim, jura? “Lotada”, disse ela. Não combina. Por que Brisbane? Tenho que ver para crer.

Cheguei aqui pela primeira vez em julho de 2006 e no meu primeiro passeio pela rua principal – Queen Street Mall – já escutei português várias vezes e vi milhares de brasileiros de longe (por que a gente que é brasileiro sabe como é fácil identificar outro brasileiro). Quatro anos se passaram e continuo constatando a mesma coisa: Brisbane está infestada de brasileiros. Não é o fato de trabalhar em uma empresa brasileira que torna o meu julgamento parcial não – tem mesmo muito brasileiro por aqui. Aliás, pra quem ficou curioso, vou falar como eu consigo identificar um estudante brasileiro na rua:

1. As meninas estão sempre ou de roupa de ginástica com legging ou tênis grande, ou com alguma roupa justa. E sempre com cabelo liso e comprido (é claro que a escova progressiva já chegou por aqui).
2. Homens com camisa da seleção ou camisa de algum time de futebol. E boné.
3. Reclamando de dinheiro/falta de.
4. A maior parte no centro e em Spring Hill, quase não se vê brasileiros nos bairros um pouco mais afastados.
5. Brasileiros andam em grupos, sempre.
6. Falando português alto no telefone.
7. Brasileiro olha pra você quando passa por você na rua. Australiano não.

Claro que eu estou falando só dos estudantes, que são a grande maioria dos brasileiros aqui na Austrália. Além de milhares de estudantes, aqui em Brisbane também tem muita gente que veio trabalhar com emprego garantido e qualificação, e esses são mais difíceis de serem identificados (embora eu ache que os três últimos tópicos aí de cima se apliquem também). Fora isso, volta e meia quando estou em um restaurante vem algum brasileiro falando “oi, você é brasileira?”. Semana passada aconteceu isso. E aí, aquelas perguntas de praxe “O que você veio fazer aqui, está gostando, você é de que cidade, volta quando blá-blá-blá”.

E tem mais: quando conheço algum australiano e falo que sou brasileira, em 50% dos casos essse australiano tem algum amigo ou conhecido brasileiro. Já não comentei nesse post aqui que até o meu time de vôlei chama-se “Team Brazil” por coincidência, pois quem me convidou para entrar no time foi um australiano? Em Gold Coast, aqui pertinho de Brisbane, tem mais brasileiro ainda. Acho que lá é mais fácil encontrar um brasileiro do que um australiano.

Fatos: tem brasileiro mesmo?


Fui conferir se a percepção era realidade e, veja só o que achei no site do Australian Bureau of Statistics (que é como se fosse o “censo australiano”):

Between 1997 and 2007, of the 75 most common countries of birth [nota: das pessoas que vivem na Austrália], persons born in Sudan recorded the highest average annual growth rate (22% per year), followed by persons born in Bangladesh (12%), Afghanistan (11%) and Brazil (10%). [outra nota: sendo que dentre esses quatro países citados nós somos os únicos que não podemos vir na condição de refugiados]
Fonte aqui.

Short-term visitor arrivals to Australia during July 2008: Of those countries outside the top ten many recorded significant increases with short-term visitor arrivals more than doubling for Spain (5,500 movements) and Brazil (3,600 movements).
Fonte aqui.

Sobre os estudantes brasileiros, também achei isso:

In terms of enrolments, growth (26%) in the vocational education sector in 2006, compared to the previous year, was mostly due to large increases in enrolments from India (166%), Brazil (51%), the Republic of Korea (34%) and China (14%).
Fonte aqui.

Tentei achar o número de brasileiros aqui na Austrália mas confesso que não consegui encontrar (aqui eu achei por região do mundo mas não por país).

Agora eu pergunto: por que esse boom de brasileiros aqui nessa terra distante? Tô aqui coçando a cabeça mas não tenho uma explicação plausível, só suposições. Suponho que seja por que Sydney já esteja infestada (até mais) de brasileiros e eles acharam que iriam fugir de mais brasileiros vindo pra Brisbane (há, ledo engano). Suponho que seja por que aqui é mais barato do que Sydney (a diferença de preços não é enorme, mas existe). Suponho que seja por que aqui é perto de Gold Coast e o clima é mais quente. Ou tambem suponho que o crescimento não foi só em Brisbane mas que a Austrália tenha “virado moda” no Brasil já que os cursos são mais baratos que na Inglaterra (que é caro e frio) e dos Estados Unidos (que tem muito americano). Suponho que seja por que aqui na Austrália estudante possa trabalhar legalmente enquanto estuda, o que dá para amealhar uma graninha boa. Suponho que seja por que nos últimos 10 anos a passagem Brasil-Austrália esteja muito mais barata ou suponho que seja por que é relativamente fácil conseguir visto de residência na Austrália se comparado aos outros países (desenvolvidos) do mundo.

Ou uma conjunção desses fatores.

Sei lá.

O Brasil é aqui

Só sei que é claro que essa brasileirada toda que está aqui sente saudades do Brasil e das coisas de lá, e com esse crescimento no numero de brasileiros, crescem na mesma proporcao a quantidade de produtos, restaurantes e lugares brasileiros.

Fui lembrando e pesquisando sobre o que tem de “Brasil” por aqui e me surpreendi com a quantidade, veja só aí embaixo. E olha que essa lista é de Brisbane, a de Sydney seria muito maior:

Mundo Churrasco – Essa eu comentei há dois posts atrás: é a nova churrascaria brasileira que foi aberta em Paddington, um bairro aqui de Brisbane (tem filial em Sydney). Ela rola no mesmo estilo de algum Porcão ou Carretão da vida (inédito para australianos): muita fartura, mesa de buffet com saladas, aipim frito, pão de queijo, entradinhas diversas, carne no espeto com garçons servindo no seu prato... Enfim, aquilo que todo brasileiro conhece e ama agora tem aqui, por 29 dólares o rodízio. Estou pra ir há tempos mas ouvi falar que tem ficado lotado. Estou ansiosa pr air e depois conto como foi.

Pennisi Distribuidores – É onde vou quando quero comprar pão de queijo e feijão. Já falei de lá nesse post.

Garra Brazilian Jiu-Jitsu – Essa é a academia de Jiu Jitsu de um amigão nosso, o Eduardo, que dividia a casa com a gente. Tô pra fazer um post com ele há tempos! Os australianos amam Brazilian Jiu-Jitsu, tem várias academias na Austrália.

Rio Rhythmics (dança de salão) - Established in Brisbane in 1994 by Brazilian director Tarcisio Teatini-Climaco, Rio Rhythmics takes pride in teaching its students to dance authentic Latin dance - the way Latin American locals do! Essa é só um exemplo, tem diversas outras academias do gênero aqui em Brisbane.

Brazilian Portuguese – O Aaron já fez esse curso de curta temporada na University of Queensland. Conheço a professora, Eliane, mineira que mora há muitos anos em Brisbane. O interesse cresce a cada ano, e geralmente os alunos são namorados(as) de brasileiros ou australianos que conheceram algun brasileiro e querem viajar para o país.

Brazilian Beauty – Cadeia de salões de beleza em Brisbane que oferece, além da óbvia “Brazilian wax”, tratamentos de pele, manicure, pedicure, etc.

Brazilian Soccer Schools – Claro que tinha que ter alguma coisa relacionada a futebol.

Capoeira Cordão de Ouro – Segundo o site “Cordao de Ouro Australia was established in October 2008 and has been offering Capoeira classes in Brisbane since March 2009.”

Panela de Pressão – Sim, até isso tem aqui.

Brazilian Style Foods website – De acordo com o site, “Brazilian Style Foods is an importing wholesale company specialising in leading brands of traditional Brazilian food products direct from the producers. We are the exclusive Australian distributor for brands such as Yoki, Garoto chocolates, Predilecta, Café Do Ponto & Café Pilao. We proudly distribute an expanding range of Brazilian grocery products across Australia.”

Agora só falta a praia de Ipanema. Como é que traz?

PS: A parte do americano eu estava brincando viu. Hehe.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Curta: Totem na Austrália

Não sei se vocês já ouviram falar do Fred D'Orey, que já foi campeão de surf nos anos 80 e hoje é dono da Totem, loja de moda-praia carioca. Pra mim ele sempre foi um exemplo de carioca que não sairia do Rio nunca. Pois bem, hoje estava lendo uma edição antiga da Trip online e qual não foi a minha surpresa ao ver que ele pretende se mudar para a Austrália?

Na entrevista ele malha horrores o Brasil, conta do episódio que ele foi assaltado na linha vermelha e diz:

"Estou em processo de tirar a residência na Austrália, pois quero ter uma cadeia de lojas da Totem lá.

Por que Austrália? Eu acredito muito na Austrália, quero que meu filho vá de bicicleta pra escola, quero andar livremente na rua, não quero ser assaltado.”

Mais aqui.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Entrevista: Sonya, uma australiana que ama o Rio

Conheci a Sonya Edith Francis quando eu estava trabalhando como garçonete em um restaurante italiano. Estava servindo uma mesa enorme com cerca de 20 pessoas que não paravam de falar, e uma das minhas tarefas era contar quais eram os pratos especiais do dia. Com o meu jeitinho bem sutil, gritei bem alto um “hello all, I’ll let you guys know what are the specials of the day” e comecei o meu discurso de dois minutos recitando os cinco pratos especiais do dia (aliás, cada uma que já passei nessa Austrália...). Pois bem, após falar os especiais, essa menina me chama e vem falar comigo com um sotaque bem gringo “oi, você é brasileira?” “sim, sou” “já morei no sul do Brasil, amo, lá é muito legal”. Conversa vai, conversa vem (sim, trabalhar como garçonete tem dessas coisas – cá entre nós, muito melhor conversar com clientes e conhecer pessoas novas do que servir comida e aturar chef italiano grosso) e assim descubro que a Sonya namora um amigo meu, o Tato. Mundinho pequeno esse...

Depois desse episódio do restaurante acabei a encontrando em algumas ocasiões, ainda aqui na Austrália, e tivemos algumas conversas. Nesses bate papos ela me confessou que o maior desejo dela, sonho mesmo, era voltar a morar no Brasil mas dessa vez, no Rio de Janeiro. E não é que ela foi mesmo, na cara e na coragem? E assim ela está, vivendo no Rio como professora de inglês e tradutora. Na Austrália ela era Consultora de Recrutamento de Recursos Humanos.

Sonya tem 28 anos, nasceu e cresceu na pequena cidade de Townsville, no norte do estado de Queensland, é descendente de indianos e ingleses e já mora há mais de um ano em Copacabana. E nem pensa em voltar para a Austrália. Aqui ela conta um pouco sobre a experiência e as diferenças entre a Austrália e o Brasil. Eu mandei as perguntas em português mas ela respondeu em inglês – eu ia traduzir, mas acho que é sempre um aprendizado para o leitor ler em inglês “australiano”. Vamos lá:

Como começou a sua história com o Brasil? (digo, quando vc se mudou para o Brasil pela primeira vez, por que, etc)
I first came to Brazil in 1999 to do a Rotary Youth Exchange Program for one year. I lived with three families in Sao Bento do Sul, Santa Catarina (South of Brazil). I was 17 at the time.

Como foi voltar pra Australia depois de morar um tempo no Brasil? Você começou a ver a Austrália “com outros olhos” (digo, de outra forma)?
The ‘readjustment’ to Australia after living for one year in Brazil was difficult to say the least. After being in such a warm and open culture, particularly living within families and being treated as a daughter of the family, I felt Australia to be a somewhat cold and individual society. I felt relationships between friends, family, colleagues etc in Australia to be very different to those in Brazil. Perhaps not worse, but different in the way people are brought up to treat others. I think the sensitivity and sincerity in the way all Brazilians treat others was the main difference. Sensitivity and sincerity is certainly something which lacks in the way Australians treat each other.

Por que você voltou pro Brasil?
Living in Brazil again was always a dream, ever since I returned after the Exchange Program. I have always loved the country, the culture and the people. This time I really wanted to experience the Rio lifestyle.

Aprender português foi muito difícil?
Learning Portuguese was not that difficult for me in the beginning. I had some luck – I was 17 at the time, I lived in a small city where German (and not English) was the second language and I went to school for 1 year, being able to learn from my school friends. These elements forced me to learn the language very quickly. I also love the Portuguese language and took it upon myself to keep improving. Now, after 10 years of being exposed to the language, I feel that to write, speak and read Portuguese at a professional level is very difficult, particularly without any formal study and or training.

O que você mais gosta no Brasil?
Oh! So much! Primarily the culture – which includes the Brazilian people, the language, the music, the food, the history.... even the bagunça! E muito muito mais! One thing I feel I need to mention here is the ‘curious’ nature of the Brazilian people. I find them to be extremely curious people who love to know everything about people from other countries and or places.

E o que você menos gosta?
The lack of education. I think it affects Brazil’s way of life and speed of progress at all levels.

Pra você, quais são as maiores diferenças entre o Brasil e a Austrália?
For me, the culture if the main difference. Australia does not have a defined culture of its own, whereas Brazil has a strong and varied culture. The nature of the people is also very different.

A violência e criminalidade do Rio afeta muito a sua vida?
I have been lucky – my life has not been affected by the violence here in Rio. Of course, I always take extra care and precautions here.

Você acha a personalidade dos australianos e brasileiros diferente ou parecida? Se acha diferente, quais são as diferenças?
This is a difficult question. There are people of all types in both countries. So, generally speaking - The relaxed and friendly way of Brazilians reminds me of Australians. The differences would be again, the warm and sensitive way Brazilians are naturally. What Australians lack in these qualities they make up for in their politeness and progressive way of thinking. Another difference is sense of humour. I think the Australian sense of humour is more sarcastic, whereas Brazilians are more literal. Finally, another difference (which I mentioned previously) is the way Brazilians are very curious and love to get to know people generally speaking. In this sense, Australians tend to be more reserved and don’t seem to take as much interest in people from other places.

Se passa por brasileira fácil né não?!

Sonya na Confeitaria Colombo, no centro do Rio.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Ficar ou não ficar, eis a questão‏

Às vezes sinto a maior saudade. Do nada ela bate. E bate, viu. Parece um daqueles ventos quentes de verão que abrem-alas pra uma apocalíptica tempestade. Essa é aquela danada de saudade que chega e já se espalha - ela dói, é pesada, e me faz pensar se é isso mesmo que eu quero, se essa é a escolha da minha vida. Ficar longe, muito longe, longe da minha cultura, da minha língua, do meu sorriso. O meio-de-campo de emoções se embola e dá aquela vontade louca de falar "que se foda" e pegar o primeiro avião. Encontrar a minha terra, o meu céu... Começo a viajar sozinha e a imaginar, aos poucos, a ansiedade da espera para se chegar ao meu, meu tão sonhado Rio, a vista das montanhas lá de cima da janelinha do avião, suas praias, seu mar. A recepção no aeroporto, o caminho pra casa, os encontros.

Ah, se eu fosse maluca...

É, mas calma que eu não sou não, a vontade aparece mas eu sempre acabo despertando desse estado entorpecido (que dura exatos 7 segundos - eu já contei). O que eu tenho é que aprender a domesticar a minha mente que ainda não sabe se comportar e às vezes transvia para esses pensamentos gostosos e insanos.

Olho em volta e vejo que isso - que de uma forma, continua sendo um sonho; é real. Penso no que tem aqui, no presente, onde estou. E no aproveitar, curtir, me entregar. Aqui mesmo, em volta, no mundo palpável, físico. O que tem de bom, por que vim, por que decidi isso, e assim começo a pensar naquele meu Rio de outra forma e lembro dos truques da nossa imaginação, que fazem a gente idealizar uma história, um lugar.


Às vezes construo o seguinte diálogo criando os personagens na minha cabeça representando o Brasil e a Austrália:

- Hummm, esse seu Rio aí, que que tem nele? Tem coisa boa?
- Tem sim senhor.
- Tem coisa ruim?
- Também tem sim senhor, diria que até bastante.
- Tem coisa muito boa?
- Putz, tem coisa muuuito boa!!! Muitas coisas muito boas, aliás.

Já com o outro personagem é assim:

- E aqui, nesse país longe, diferente? Tem coisa boa?
- Tem sim senhor.
- Tem coisa ruim?
- Hummm. Tee-... hummm, olha senhor, coisa ruim, assim ruim ruim, nao sei... não não, tem coisa ruim sim, mas não é ruuuim não sabe? É ruim mas não é ruim. Tendeu?
- Hum, mais ou menos. Não é tão ruim assim, você quer dizer?
- É. Acho que é por aí.
- Tá, ok, ok, confuso isso hein. Vamos mudar pra coisa boa. Tem coisa muito boa?
- Tem coisa boa sim senhor.
- Não falei boa, falei muito boa. Tem coisa muito boa?
- Hum, tem.
- Só isso?
- É, ué, já falei que tem.
- E a empolgação, cadê? Voce tá falando de coisa muito boa lembra? É isso?
- Hum, é. Tem. Tem sim.

Às vezes é assim que me sinto. Um amigo uma vez me falou uma frase que eu não vou esquecer nunca: "Verinha, enquanto a Austrália é novela das 6, o Brasil é novela das 8". Pros 3% de brasileiros que não veem novela, eu explico: as novelas das 6 são aquelas com cenários lindos, tudo limpo, perfeito. Todo mundo arrumado, bonito, com pele lisa sabe? Geralmente é novela de época. As ações são poucas, geralmente uma história romântica, fofocas inocentes dentro de casa, sorrisos, gente simpática e claro, um galã estilo Disney e o casal que se casa no final e assim são felizes para sempre.

A novela das 8 não. A novela das 8 tem ação, tem o mocinho cheio de falhas geralmente mulherengo e safado e que tá pegando a secretária, mulheres loucas urbanas e obsessivas que destratam seus funcionários que trabalham naquela mega-corporação da família, viagens para a Europa no início da novela, alguém que é assassinado no final, o mendigo-gente-boa que toca um sambinha na rua, a história da empregada pobre, a história da patroa rica - sempre, com muita, mas muita ação essa novela das 8.

Engraçado que pra mim essa comparação se encaixou perfeitamente. Assim como o Tom Jobim que falou aquela famosa frase: “Morar no Brasil é uma merda mas é bom, morar nos EUA é bom mas é uma merda.”

Outra seria aquela do motorista de bugue nas dunas de Natal: "E aí dona, quer com emoção ou sem emoção?". O Brasil é com emoção. Ah, devo falar que eh com tanta emoção que parece até que você vai cair do bugue no meio caminho - em compensação, você se diverte que é uma beleza.

Por que eu tô falando isso?

Devo confessar que a minha primeira idéia era sentar na cadeira para escrever um post sobre o que é ser "imigrante" mas não tem jeito, antes de entrar na tática eu tinha que colocar o dedo na principal ferida – por que meu amigo, se você não está preparado emocionalmente pra isso, é melhor pensar com mais calma afinal esse é o primeiro ponto: saudade, indecisão, pensar lá e aqui. Querer voltar, querer ficar.

Claro que isso não acontece o tempo todo, a gente acaba se integrando à rotina australiana e tem dias (às vezes, semanas) que nem se pensa no Brasil, família e amigos. Mas por mais que você esteja integrado, você vai sempre pensar no seu país – pensar só não, mas idealizá-lo usandos lentes cor-de-rosa e lembrando, na maioria, das coisas boas. Por isso é bom parar para lembrar das coisas ruins também, se não você pira. E tem coisa ruim sim, como falei antes, tem muita. Infelizmente.

Bem, aqui eu estou falando de mim: conheço gente que pensa ao contrário, quando lembra do Brasil, lembra de assaltos, pobreza, insegurança. Só lembra das coisas ruins. De repente era melhor pensar assim, mais fácil. Mas não consigo. Essa não seria eu, não seria a Verinha que, apesar de tudo, ainda ama o Brasil. Quanto a essa indecisão a que me refiro, conheço de tudo: brasileiros que nem pensam em voltar, brasileiros que nem pensam em ficar... Mas a maioria quer ficar na Austrália por um tempo e depois voltar para o Brasil: seja em dois anos, cinco, dez ou quando se aposentar. Se isso vai acontecer mesmo, ai eu jah nao sei. Mas não tem jeito, você não esquece nunca.

Quando você mora fora tudo é novo. Você não tem uma história naquelas ruas, o verde das plantas tem um tom diferente, mais que um idioma, o jeito de se expressar é diferente, de comer, de celebrar, de negociar, de comprar. Quando nós brasileiros lembramos das aulas de História da quinta série, pensamos no Pedro Álvares de Cabral e no Tratado de Tordesilhas. Eles não. Os símbolos, os sinais mudam diferentes. O jeito de fazer amigos, o modo de conseguir trabalho... fora a distância da familia e dos amigos de longa data que nunca, nunca serão substituídos.

Mesmo com tudo isso, fico admirada como as qualidades fundamentais de nós, humanos, seres complexos e mutáveis. Por que, apesar disso tudo no final "a gente se vira". Se vira sim, aprende, quebra a cara, se dá bem, enfim, aprendemos com os nossos erros e acertos. A gente insiste por que, mais do que emoções limitadas à nossa cabeça, o que todo mundo quer é viver bem.

Vejo, no caso de vários brasileiros, que mesmo com tudo isso a vida aqui na Austrália ainda é melhor. No final das contas, o que compõe, digamos, 70% da nossa vida é aquela rotininha lá do dia-a-dia: trabalho, casa, esperar o final de semana, final de semana, casa, trabalho etc. E por mais que você tenha um certo “conforto” (metaforicamente falando) no país de origem, às vezes você não tem qualidade de vida ou perspectiva de ter uma vida melhor (agora conforto esse economicamente falando).

E essa é uma das grandes atrações da Austrália. Apesar de parecer ter falado que aqui não tem coisa muito boa, devo voltar atrás e falar que tem, sim, principalmente as possibilidades que se abrem em vários quesitos. Poder viajar mais, absorver uma nova cultura, começar a ver o mundo – e principalmente, o Brasil – com outros olhos. Aprender, se aventurar, odiar, sofrer, amar. Sair da zona de conforto.

Eu sei que tem gente que não troca a vidinha de sempre no Brasil por nada – isso aí, cada um tem a sua escolha. As pessoas são diferentes, precisam de experiências diferentes. Pra mim a Austrália foi e continua sendo uma experiência única, inesquecível. Certamente saí da minha zona de conforto ao tentar a vida em outro país. Já me perguntei diversas vezes se fiz a coisa certa. Fiz sim, só eu sei que se eu não tivesse vindo morar fora seria uma eterna frustrada.

Sair da zona de conforto.

E entrar nela também.

O triste do nosso país é que ele não te dá muito liberdade: liberdade não é poder beber cerveja na praia, pra mim liberdade muito maior é poder se arriscar na vida e saber que você não vai estar na merda quando voltar. Que vai ter um emprego, que vai ter dinheiro, que não, nunca você vai ficar na sarjeta. Aqui não rola isso por que qualquer emprego que você tenha você ganha dinheiro. Grana boa, pra viver uma vida acima do razoável.

Alguns brasileiros que conheço são loucos pra voltar a morar no Brasil mas não voltam. A primeira pergunta que passa pela cabeça deles é: “voltar pra fazer o que?”. Ficam com medo de passar perrengue no Brasil, apavorados pela incerteza, pela dificuldade em encontrar um emprego que pague bem, que faça eles terem uma vida decente, fora a inseguranca que pesa muito. E assim o verde brasileiro se torna menos verde, as praias, menos bonitas, o povo mais triste. E aquele sonho que eu tive lá no começo muda.

De uma certa forma, eu não posso reclamar muito pois nunca tive dificuldade de encontrar emprego no Brasil. Mas não tenho pressa de voltar. Sinto falta, sinto saudade, mas ainda tenho um bom tempo aqui na Austrália. Não quero só viver, quero navegar, explorar, ver mais, conhecer mais. Tenho certeza que o meu Rio estará sempre lá, de braços abertos e sorrindo pra mim.