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sábado, 19 de junho de 2010

Africa do Sul e a Australia

(desculpe, hoje meu teclado estah sem acento)

Aproveitando o momentum Africa do Sul & Copa do Mundo, queria falar um pouco mais sobre esse pais que tem tantas diferencas e similaridades com a Australia e com o Brasil.

Como sempre, vou falar o que sei e o que vi - estive duas vezes na Africa do Sul (na Cidade do Cabo em 2007 e Johanesburgo em 2008), conheco alguns sul-africanos e, obviamente, moro na Australia o que me deu uma boa ideia de comparacao com esse seu "irmao desgarrado" de mesmos pais (os ingleses), padrasto distinto (o africano eh holandes) e "criacao" bem diferente...

Primeiro, uma ressalva para os brasileiros que moram ou que pretendem viver na Australia: da proxima vez que voce for visitar o Brasil, compre a passagem pelo outro lado do mundo, e nao via Nova Zelandia e Chile/Argentina. Lembro que a passagem custou meros 200 dolares a mais via Africa, e a experiencia valeu muito a pena - tanto que quero voltar pro continente (soh nao sei ainda quando, mas com certeza essa jornada me mostrou que a Africa deveria estar mais no mapa, na imprensa, na nossa vida).

Toda vez que faco o trajeto Brasil-Australia e vice-versa eu aproveito as paradas habituais do voo para conhecer o pais da escala. Santiago e arredores jah conheco muito bem de outros carnavais, jah que mi hermanito Beto mora por lah ha mais de 15 anos (fala Betito, taih maninho?!), mesmo assim, vejo sempre como uma oportunidade poder usar o voo para parar e conhecer um pouco mais sobre o que o Chile tem a oferecer. Nova Zelandia a mesma coisa, tanto eh que no ano passado o percurso Brasil-Australia demorou tres semanas a mais: duas no Chile (com Deserto de Atacama incluido - falei um pouco sobre lah nesses posts) e Nova Zelandia (uma semana na Ilha Sul nos mostrou os lugares mais lindos e breathtaking que pude imaginar na vida).

Ou seja, meu primeiro recado antes de comecar a falar sobre a Africa do Sul eh: aproveite essa longa viagem da Republica das Bananas pra Terra dos Cangurus, curta, e se voce for de ferias da Australia ao Brasil, nao se prenda todo tempo ao Brasil, pare no caminho, ou na ida, ou na volta, ou nos dois. Faca valer o seu dinheiro (jah que a parada seria mesmo escala e voce nao estah pagando extra por isso) e a sua vontade de conhecer o mundo. E de quebra o jet-leg inicial fica mais facil de ser digerido.

Falando da viagem em si: o percurso seria Rio-Sao Paulo-Johanesburgo-Sydney-Brisbane e vice-versa, mas quando parei em Johanesburgo, lah mesmo no aeroporto, comprei uma passagem para a Cidade do Cabo (Cape Town) que fica a cerca de 3 horas de voo ao oeste de Johanesburgo (passei quase por cima da cidade a caminho de Johanesburgo, ou seja, fui e voltei). Vale frisar que o aeroporto de Johanesburgo jah em 2007 estava cheio de posters pre-Copa do Mundo. Pois bem, no voo mesmo entre J'burg (assim carinhosamente chamada pelos locais) e Cape Town o caminho jah eh impressionante, com muitas montanhas e desertos.

Pode me chamar maluca, mas juro pra voce que neste voo que cruza a Africa do Sul fiquei olhando pra baixo quase o tempo todo pra ver se achava um elefante, uma zebra ou uma girafa pelo caminho hehe. Soh muito depois fui descobrir que um tour por um safari qualquer da vida custa carissimo, pelo menos uns 1500 dolares por 3 dias. Na epoca, minha vida de mochileira e garconete na Australia nao me permitiu tal ousadia, mas tudo bem, soh a experiencia de estar lah, naquele continente "perdido" (como pode ser chamado de perdido neh?) jah valia uma Arca de Noe inteira. Duas, tres.

A Cidade do Cabo eh uma cidade linda que me lembrou um pouco o Rio de Janeiro, com o sensacional encontro entre natureza, verde, montanha e mar. Quando saih do aeroporto lembro que vi algumas favelas, mas elas sao um pouco diferentes: cada casinha eh bem menor (descobri em um tour depois que elas sao chamadas de match boxes - caixinhas de fosforo), planas, e feitas com um material diferente, acho que zinco...

Os sinais e placas nas ruas sao escritos em Afrikaan (lingua oriunda do holandes, que chegaram por aquelas bandas em 1600 e alguma coisa) e ingles. No caminho reparei em alguns Fish 'n Chips, tao comuns na Australia, e a arquitetura inglesa, com algumas casas, pubs e hoteis bem parecidos com o que vejo em Brisbane. Verdade, sao todos da Commonwealth pensei - India, Canada, Africa do Sul, Australia, Inglaterra, Nova Zelandia e alguns outros paises, todos com colonizacao inglesa... Apesar das diferencas economicas obvias, acredito esses paises tenham muito mais em comum do que imaginamos. Confesso que, ateh fruto da minha falta de informacao, eu me surpreendi pois nao esperava encontrar um pouco da Australia na Africa do Sul fora a lingua e o fato dos dois estarem no hemisferio sul (como o Brasil).

Na minha pesquisa sobre o que tem de parecido entre a Australia e a Africa do Sul achei uma entrevista bacana de um executivo sul africano da BMW que tambem trabalhou na Australia e disse que ambos os paises tem "surprising similarities". Leia um trecho:

Clive Prevost: When most people think of Africa, and even South Africa, they probably imagine a very different society to Australia. While there certainly are many differences, there are also a surprising number of similarities.

Both countries are in the southern hemisphere, and thus relatively lacking in access to major international markets. The structure of the economies is surprisingly similar: 60-70% services, 10-15% primary industries and 10-15% manufacturing. Both are major exporters: Australia is listed in 29th place and SA in 39th place (out of 228 countries), according to one recent study. Both countries are rich in natural resources such as gold, coal, iron ore, nickel, uranium, diamonds, natural gas and other minerals specific to each country.

Legal systems in both countries are based on English common law (although South Africa has other influences as well). Both rate well for political and civil liberties, and both, of course, share a passion for sports.
Entrevista completa neste link.

Depois falo mais sobre isso, vamos voltar a viagem com algumas fotos que tirei pela Cidade do Cabo e arredores:

Como pode?


Pub/Hotel em Cape Town.

Table Mountain.


Nao eh soh o oceano que tem contrastes...

Praia no caminho entre Cape Town e o Cabo da Boa Esperanca. Tem muito pinguim por essa costa.


Cabo da Boa Esperanca: lembra das aulas de historia?

Na minha curta vigem de cinco dias a Cidade do Cabo eu conheci a ilha-prisao que o Mandela ficou preso por mais de 20 anos (Robben Island), o Cabo da Boa Esperanca, fiz um tour por umas montanhas ao lado da cidade, andei um pouco... E tenho que fazer uma ressalva nesse ultimo: algumas vezes me senti sim insegura por andar a noite por Cape Town.

Uma hora estava caminhando do meu albergue em direcao a um famoso cais da cidade cheio de bares e restaurantes, eram umas 7 da noite e estava comecando a escurecer, e eu via imensos grupos de sul-africanos andando juntos (em geral, pessoas mais humildes e com a pele bem negra, diferentes da maior parte dos brasileiros que sao mulatos, mais misturados), varios, mas nao me senti ameacada (talvez um pouco mas a carioca aqui se fez de valentona e pensou "deixa comigo"). Eis que de repente uma senhora branca me parou e me perguntou se eu era turista. Respondi que sim, e ela me disse "nao ande por aqui a noite, alias, por nenhum lugar, pegue um taxi, eh perigoso". Eh... realmente... tem fish 'n chips e tal but let's not forget this is Africa.

De qualquer forma, gostei muito da cidade, achei muito bonita, mas vi muitas cercas grandes e arames farpados. O nosso albergue mesmo tinha uma seguranca grande, a cidade a noite era bem mais vazia se comparada a durante o dia. Um ar diferente, mais tenso, um pouco mais tenso do que o do Rio, eu achei. Uma grande Cinelandia a noite talvez.

No albergue conheci alguns mocambicanos; estava no bar sozinha quando ouvi um portugues com uma batida diferente (Mocambique eh vizinha a Africa do Sul e lah eles falam portugues), perguntei de onde eles eram, falei que era brasileira, o sorriso deles abriu (como de praxe o povo ama brasileiro) "aaahh brasileira, jah morei em Niteroi, muito bom, muito bom" e assim eles viraram meus melhores amigos de uma noite. A simpatia, o acolhimento, o tom de voz alto, a brincadeira... te digo uma coisa, isso nos brasileiros puxamos dos africanos, tenho certeza. Comprovei naquela noite de um albergue lotado de ingleses, canadenses, alemaes que os que mais se pareciam comigo, por incrivel que pareca, eram os mocambicanos. Eh ou nao eh pra voltar?

Depois dessa viagem rumei para a Australia em um exaustanta voo de 15 horas entre J'Burg e Sydney, sobrevoando o Indico e toda a extensao da Australia. Quando cheguei a Australia senti falta das cores, do barulho, sei lah, do sal africano (metaforicamente falando), mas nao senti nem um pouco falta do ar de ameaca eterna da noite de Cape Town. Novela das 6, lembra?

No ano seguinte (2008), na perna da volta ao Brasil, parei em Johanesburgo por tres dias. Primeira impressao? Johanesburgo eh feia. E fria. Parece que J'burg eh uma cidade-irma de Sao Paulo no Wikipedia (jah viu isso? Toda cidade no Wikipedia tem cidade-irma, que significa a cidade que se parece com aquele descrita de alguma forma). Pra mim irma de Sao Paulo significa que puxou aqueles genes feios (paulistanos, me desculpem, Sampa tem mil qualidades mas beleza nao eh uma delas). E tava um friiio, mas um frio... era julho, como agora na epoca da Copa, e estavam uns 3 graus na madrugada. O aeroporto, alias, meio baguncado, aqueles caras berrando pra voce pegar o taxi deles... Lembro que o cara do meu albergue se confundiu com o horario e atrasou uma hora, eu tava ali batendo queixo na calcada do aeroporto, olhando tudo ao meu redor e louca pra chegar a uma cama quentinha.

Rumei ao meu albergue, que tinha tambem uma cerca enorme com arame farpado. Era um bom albergue, barato e com piscina (obviamente nao utilizada devido ao frio). O rapaz que trabalhava lah, negro, era muito humilde, mas muito mesmo, olhava pra baixo o tempo todo ao falar e era um tanto quieto. Me lembra um pouco o Brasil.

No primeiro dia fiz um tour por Johanesburgo. Era um tour anunciado pelo albergue e eu era a unica turista em pleno sabado. Eh isso mesmo, J'burg tem poucos turistas - bem diferente de Cape Town. Ou seja, eu poderia fazer o meu percurso. Escolhi dar um passei no meio da cidade para sentir como é, ir ao Museu do Apartheid - uma das experiencias mais chocantes da minha vida - e a uma feira de roupa, comida e artesanato. Essa feira, alias, tinha coisas lindissimas com estampas africanas, coisas que no Brasil ou Australia custariam o olho da cara mas que lah eram baratissimas.

Centro de Johanesburgo.

As duas ultimas fotos acima foram tiradas na famosa favela/bairro de Soweto, famoso "palco" de diversas manifestacoes contra o Apartheid (lembrando que o Apartheid acabou soh em 1994). Alias, alem do Apartheid e da probreza, do Mandela, do alto indice de infectados pela AIDS e dos sul africanos que conheci aqui na Australia, eu pouco sabia sobre o pais.

No geral, vi em J'Burg uma cidade parecida mesmo com Sao Paulo, com predios e cinza, mas em menor tamanho. Tambem descobri que, assim como a Australia, a Africa do Sul eh um dos paises com o maior numero de minerios do mundo: J'Burg cresceu e ficou do jeito estah pela corrida ao ouro, existe (ou melhor, existiu) muito ouro e diamante embaixo e nos arredores da cidade. No meio de Johanesburgo tem ateh uma estatua enorme de um minerador australiano que eu vou ficar devendo o nome (procurei no Google mas nao encontrei).

E as comparacoes nao acabam por aqui:

Both South Africa and Australia were once colonial countries under British rule. Both had gold rushes, and both had significant Asian immigration. However, South African identities are dominated by conceptions of race. In Australia, social policy has worked to prevent race becoming a huge factor in the Australian identity until relatively recently.
Fonte.

No proximo post eu falarei mais sobre a Africa do Sul na Australia, e os varios sul africanos que moram por aqui. Ate la!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Visita a uma mina de carvao australiana

(sorry, hoje o teclado estah sem acentuacao)

UAAAU!!! WOW! Inacreditavel! Meu Deus! Eh assim?!!! Caramba! (queixo caido)

Essa sou eu entrando em uma mina de carvao situada em Hunter Valley, no estado australiano de New South Wales. Fui a trabalho, e tive a oportunidade de visitar essa mina abaixo da superficie (chamada de Underground) e outra na superficie (aqui chama-se Open Cut).

(Momento parenteses: antes de entrar no assunto vou contar sobre o que acho sobre percepcoes iniciais e como elas impactam na realidade que constatamos - nao por acaso perguntei sobre as percepcoes sobre o Brasil nas entrevistas com os australianos que fiz pro blog. Um amigo uma vez me falou uma coisa que me marcou bastante e que faz todo o sentido: que a vida nao eh a vida por si soh, ou seja, nao existe essa falada “realidade nua e crua” e sim, existe a novela – ou historia, mas acho que o termo novela ilustra melhor - que fazemos na nossa cabeca. O que eu estou tentando dizer eh que nesse exato segundo em que voce estah lendo esse texto existem 7 bilhoes de novelas rolando e sem intervalo comercial. Cada pessoa tem o seu proprio roteiro: ou seja, nos fazemos o cenario do modo que acharmos mais comodo para a nossa limitada mente e colocamos atores (nossos amigos, familia, conhecidos etc) nos papeis que nos convem. Muito disso acontece tambem por falta de conhecimento e experiencia, por preconceito, pela religiao, por valores de vida – por varias razoes. Mas no final, ao conhecermos mais uma coisa ou alguem, constatamos que as vezes colocamos essa coisa ou essa pessoa no papel errado, ou confundimos o cenario... enfim.

Foi mal pela filosofia barata mas falo isso pra poder introduzir o assunto mina aqui pra voce. Pra mim a experiencia foi tao grandiosa, mas tao, que eu tenho que comecar devagar e tateando o tema pra voces entenderem junto comigo o que eh que eu estou realmente querendo dizer aqui. E adianto que nao vai ser facil.)

Voltando ao comeco do post: mesmo apos ler bastante sobre o assunto, a minha ideia sobre uma mina de carvao underground era a de um buraco na terra com um tunel vertical mais ou menos pequeno e profundo, no maximo estourando com uma centena de metros, que chegaria a um outro tunel dessa vez na horizontal, e que nesse tunel na horizontal teria um bando de homens e maquinas trabalhando para escavar o tal carvao que estaria nas paredes desse tal tunel.

Conseguiu captar a imagem na sua cabeca?
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Entao esquece.

Uma mina de carvao underground – pelo menos a que fui – eh muito, mas muito mais do que isso. Vou comecar do comeco: quando voce chega lah de carro, obviamente que ainda na superficie, primeiro o que encontra eh a base, que sao os escritorios, a administracao, a sala de controle, banheiros, equipamentos, etc. Em seguida, como eu iria descer para a mina, tive que fazer uma inducao de uma hora na sala de treinamento que me faria entender todo o esquema de seguranca, o que fazer quando estivesse lah embaixo, o que nao fazer, como lidar em casos de alguma emergencia, o telefone da emergencia, como usar a mascara de oxigenio (obrigatoria para quem desce mas que, pelo menos na mina que fui, nunca ninguem precisou usa-la) entre outras coisas. Vale destacar que a Australia, com uma politica rigorosa e exemplar de seguranca e protecao dos mineiros junto a uma moderna tecnologia no maquinario das minas, eh um dos paises do mundo com o menor indice de fatalidades entre mineiros do mundo, e a China, o maior.

Pois bem, apos colocar todo o equipamento (capacete com luz, macacao, bota, uma caixa com a mascara e oxigenio etc), entramos no carro especial (que parece um tanque de guerra soh que mais aberto) e rumamos em direcao ao local de escavacao de carvao da mina. Saimos da base e comecamos a descer uma ladeira e, de repente, entramos na porta do tunel com 3 metros de altura por 5 de largura. O carro vai andando e gradualmente o ambiente vai escurecendo. A sensacao de claustrofobia eh enorme e jah sentimos um ar diferente, denso, cheio de poh. Olho para tras e vejo a luz do comeco do tunel diminuindo, diminuindo, ate que acaba e eh breu total – a frente do caminho eh apenas iluminada pelo farol do carro-tanque-aberto. Parece que estamos em uma mega-caverna com uma estradinha fina e sinalizada. Passam-se 5 minutos, 10, 15... 20. Vinte minutos! Os 20 minutos mais longos da minha vida, parecia que estavamos em direcao ao centro da Terra. Calma nao acabou. Mais 5, mais 10. Sim, o carro andou 30 minutos debaixo da terra. Repito: meia hora dirigindo embaixo da terra, e eu nao estava dentro de um vagao de metro iluminado com sinais eletronicos, McDonalds e escadas rolantes, eu estava em um tunel inospito e escuro e claustrofobico, com uma rede feita de ferro segurando as pedras do teto e outros equipamentos sofisticados e carissimos feitos para segurar a estrutura do teto. Olha, essa explicacao sobre como eles conseguem segurar o teto eu vou ficar devendo, por que por mais que eu tente explicar, nao vou conseguir jah que o meu proprio cerebro nao consegue absorver e entender como eh que eles conseguem fazer isso.

Nem preciso falar que, em todo esse trajeto de meia hora, o meu coracao estava aceleradissimo numa mistura de excitacao, incredulidade, surpresa, admiracao e medo. Como o ser humano consegue fazer isso? Por que? Uma coisa eu sei: tudo isso foi feito pra conseguir carvao, claro. Mas como foi isso? Como a humanidade chegou a conclusao que deveriam cavar longos tuneis debaixo da terra, colocar a vida de milhares de pessoas em risco para achar uma pedra preta que serviria como combustivel para gerar eletricidade e assim, o progresso?

Ao mesmo tempo, nesses 30 minutos eu pensava sobre a pequenez da minha vida, das coisas que faco, do meu dia a dia – um grao de areia eh pouco se comparado a um negocio desses. Pensei no trabalho desses homens, trabalhando 12 horas por dia em um ambiente tao duro, tao dificil. Da coragem deles, da forca. Dos efeitos que um trabalho desses pode ter na vida de uma pessoa (nao vou esquecer dessas tres horas que passei embaixo da terra nunca na minha vida). Da grandiosidade do ser humano, da capacidade que nos temos de atingir coisas, de ir alem, de imaginar, pensar, planejar e fazer.

Enquanto todas essas questoes rondavam a minha cabeca, finalmente o carro parou e chegamos ao ponto de escavacao do carvao em si – lembre-se, todo esse trajeto era “apenas” o caminho para se chegar lah, no “ouro negro”. A mina que fui era a do tipo longwall, ou seja, o carvao eh escavado atraves de uma imensa roda com dentes em seu entorno, e a medida que essa roda gira, ela vai retirando o que tem na parede – o carvao. Mas admito a voces que prefiro nao dar explicacos tecnicas jah que eu nao trabalho em minas, nao sou engenheira de minas e nao me sinto a vontade para falar sobre uma coisa tao especifica e complicada como o modus operandi de uma mina como essa. Se voce quiser ler mais sobre o assunto, clica aqui (em ingles).

Tambem tive a oportunidade de visitar uma mina Open Cut, e tambem eh bem impressionante, mas pra mim a sensacao de ver (e sentir, e cheirar) uma mina underground eh... eh.... bem, nao sei se posso dizer indescritivel jah que eu acabei de tentar descreve-la, mas mesmo assim, acho que indescritivel ainda eh uma boa palavra pois, mesmo que eu tente, qualquer descricao ainda nao serah suficiente.

Acho que todos estao cansados de saber que a Australia eh um dos paises do mundo com a maior quantidade de metais, pedras e volume de mineracao. Carvao, cobre, prata, minerio de ferro, zinco, diamante, bauxita, uranio, petroleo... you name it, tem aqui. Mineracao eh uma parte importantissima da economia da Australia e, claro, das comunidades ao entorno de cada mina (onde os moradores trabalham, vivem e respiram a mina). A Australia eh, disparado, o maior exportador de carvao do mundo (afinal, com uma populacao super pequena de 20 milhoes de habitantes e carvao abundante, o negocio eh vender) e o quarto maior produtor, atras da China, Estados Unidos e India. Se voce quiser ler mais sobre o assunto, procura aqui (em ingles), pode ser um bom comeco.

Em grande parte o pais eh deserto e infertil para plantacoes e para a vida humana e, ironicamente, muito fertil para essas pedras e substancias tao preciosas justamente para a vida humana. Afinal, quem eh que faz os nossos ar-condicionados, televisoes, computadores, iPods, iPhones, luzes, carros, avioes, telefones, industrias, empresas e muito mais, poderem ser criados e funcionarem?

Muita gente reclama dos impactos ambientais da mineracao (do carvao principalmente), mas essas pessoas nao moram no meio do mato sem luz e com uma fogueira na frente, cacando e plantando a sua propria comida. Eh claro que seria maravilhoso para o mundo se tivessemos uma energia “limpa” e barata mas a energia solar e eolica ainda, nem de longe, consegue suprir a demanda da humanidade. Infelizmente isso ainda nao acontece nao soh pela ma-vontade dos governantes e poderosos (tambem), mas pelo valor de implementacao dessas energias, ainda carissimas e com a tecnologia em estado embrionario. Nao acho que nos, dessa geracao, conseguiremos ver uma mudanca da fonte de energia. Enquanto isso, teremos que conviver com as minas que fazem a nossa vida ser da forma que eh hoje - a nao ser que a gente mude radicalmente o nosso estilo de vida e volte alguns seculos atras. Antes de perguntar se estamos preparados, vale a pergunta: serah que eh isso que queremos?

(nao vou postar nenhuma foto pois prefiro prevenir - nao sei qual eh a politica de comunicacao da empresa em que trabalho para exposicao de fotos em blog pessoais - mas aqui estao os links para fotos de algumas minas underground e open cut)


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Bem, o post tah muito longo, vou ficando por aqui hoje. Essa semana tem a continuacao da serie sobre "Jeitinho Australiano": vou falar sobre a forma dos australianos falarem (ingles australiano: sotaque e girias). Ate lah!