quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ter classe é não mostrar a sua classe

Nesse blog eu costumo falar sobre as diferenças e peculiaridades da Austrália em relação ao Brasil. Hoje eu vou falar sobre a maior delas, disparado. Sabe qual é? Classes sociais.

Sociólogos, pesquisadores, estudiosos do tema, todo mundo fala sobre isso, mas afinal, qual é a real diferença entre viver em um país tão socialmente desigual, e um tão igual?

Pra mim foi uma mudança de mentalidade e um aprendizado enorme - e continua sendo. Venho de uma família classe média, e no Brasil, ser classe média significa ser da elite, do topo da pirâmide. E aqui na Austrália a base da pirâmide é a classe média. Eu não sei qual é a porcentagem exata e, me desculpem, não vou pesquisar agora, mas já é sabido que a Austrália é um dos países do mundo com o maior número da população na classe média. Todo mundo aqui é classe média – pode ser média um pouco mais baixa, ou um pouco mais alta, mas todo mundo aqui tem sim um padrão de vida razoável, não apenas suficiente para sobreviver com as necessidades básicas (moradia, alimentação, saúde, etc) como também, com viver com certos luxos como viajar de vez em quando, ir para um cinema, restaurante, e às vezes comprar uma roupa ou um eletro-eletrônico legal, por exemplo...

No Brasil, a maior parte da classe média tem sim um certo preconceito e até mesmo distância em relação à camada mais pobre da população. As empregadas, babás, garçons, motoristas de ônibus, manicures, faxineiros etc, na visão deturpada e consolidada de muita gente, são pessoas de “segunda classe”, que não merecem alguns minutos de conversa, de simpatia, de consideração, de respeito. E morando aqui na Austrália eu percebi como nós, da classe média, já estamos tão, mas tão afundados nessa cultura bizarra de segregação que nem percebemos como exploramos sim todo esse povo, ao pagar muito pouco pelos serviços que eles provém. E que essa exploração constante da "elite" da população em relação às camadas mais baixas é uma bola de neve tão grande que nem sei mais como conseguiremos para-la um dia.

Quando eu cheguei na Austrália, ficava horrorizada com o preço de algumas coisas que eram tão baratas no Brasil e que eram caríssimas aqui. Por exemplo, depilação e manicure. Manicure aqui custa 50 dólares por sessão. No Brasil, pagava 15 reais para fazer pé e mão. Meu pensamento quando cheguei aqui era “nossa, no Brasil é tão mais barato, ai, essa Austrália é muito cara, que absurdo pagar tudo isso!”. Passado o choque inicial, a constatação: essas mesmas manicures que cobravam 15 reais tiveram filho aos 14 anos de idade, moravam em favelas, trabalhavam horrores e nem viam os filhos direito. Imagina, ficar uma hora fazendo o pé e mão de alguma pessoa com mais dinheiro só para ganhar uns trocados no final? Já as manicures daqui tem carro, moram em um apartamento bacana, compram roupas legais, saem a noite, viajam de vez em quando. Por que? Por que recebem um salário digno, pago por quem usufrui do serviço. E isso vale para tudo. Motorista de ônibus decidiu virar motorista por que gosta do estilo de vida, por que escolheu isso. Ganham bem. Encanador na Austrália, há dois anos atrás, tinha o melhor salário do país – mais do que engenheiro ou profissional de TI. Empregada? Soh milionario tem. Empregada que mora em casa? Soh ultra-super-hiper-milionario. Babá é nos sábados a noite quando rola uma ocasiao especial e olhe lá...

Ou seja, você não precisa ser formado com MBA ou trabalhar pro governo pra viver bem e ser respeitado. Aqui as pessoas se tratam de igual pra igual, falam “bom dia, boa tarde, boa noite” pro faxineiro, perguntam como foi o dia, fazem aquelas piadinhas de sempre... Conversam com os garçons (cansei de jogar conversa fora com clientes quando trabalhava como garçonete). Aliás, isso me lembra aquela frase do Luis Fernando Veríssimo: “Você sabe muito sobre uma pessoa ao ver o jeito com que ela trata o garçom”.

Outra coisa importante é que ninguém tem essa “síndrome de coitadinho” que muitos pobres no Brasil tem; sabe aquele jeitinho que algumas pessoas tem, tão humildes e “olhando pra baixo” que parece que eles mesmos caem na carapuça de serem cidadãos de segunda classe? Não gosto quando alguém faz um favor e diz “obrigada Dona Vera”. Quem tem que agradecer sou eu, não é? Pior ainda é aquele "desculpa qualquer coisa". Desnecessario.

Ah, outra coisa que vejo aqui: não rola essa ostentação enorme que rola no Brasil, principalmente na Zona Sul carioca (que é onde vivi e por isso posso falar). Claro que rola um carro mais bacana, ou alguém falando que viajou pra não sei aonde, que tem não sei o que... mas com um contexto, não é da forma gratuita que muitas vezes acontece no Brasil. No Brasil, pela divisão enorme das camadas sociais, parece que a classe média faz questão de mostrar que faz parte daquele específico grupo – é quase como uma simbologia tribal falar que você tem isso ou aquilo, usar a calça da marca tal, bolsa Louis Vuitton, etc. Mostra que você não faz parte “daquela classezinha”.

Tive uma chefe há pouco tempo atrás no Brasil que tratava a empregada e o motorista como a escória do universo. Talvez se eu não tivesse morado na Austrália antes disso, não ligaria tanto (sim, é uma auto-crítica sobre a minha alienação passada e às vezes, admito, ainda presente). Mas morei. E aquele tipo de tratamento, tão desumano, me incomodava tanto, que eu deixei de admirá-la - e olha que ela era uma profissional respeitadíssima na sua área. Fora o tratamento comigo mesmo, já que eu era subordinada, estilo “ei, me respeita porque eu sou mais do que você”. Pra mim, isso mostra que é menos.

Enfim, esse foi só o começo do assunto, pois acho que poderia falar sobre isso por horas e horas, e outro dia eu continuo essa prosa. Aliás, um dia eu peço pro maridão Aaron contribuir pro blog e falar sobre a experiência dele de trabalhar na cozinha no Brasil com pessoas que moravam na favela (como muitos que lêem o blog já sabem, ele é australiano e chef de cozinha e morou um ano na nossa terra brasilis)... ele tem uma boa perspectiva sobre o assunto e já me ensinou muito.

E por favor, se você for da classe média brasileira, não leve isso tudo que eu falei como uma crítica feroz e irrestrita, por que não é. Obviamente que muitos não estão na mesma proporção extrema da minha ex-chefe. Nós fomos criados dentro dessa cultura, aprendemos a viver dessa forma, e por isso não podemos ser “culpados” por sermos assim ou assado. Como explicar pro verde que ele pode virar azul? Acho que é um processo difícil "reprogramar” o cérebro, mas a cada dia mais eu aprendo que é sim, possível e acima de tudo, necessário. São os ajustes da vida. Aliás, acho que o que mais aprendi na Australia não foi inglês ou como dirigir o carro no lado esquerdo da rua. O que mais aprendi – e continuo aprendendo – é que as pessoas são iguais, e que alguns infelizmente, e por obra única e exclusivamente do destino, nasceram em famílias e locais menos favorecidos. E que por isso mesmo elas merecem o nosso profundo respeito.

Mas calma, na Australia a situacao eh melhor nesse sentido, mas tem outro lado: algumas pessoas menos instruidas tem preconceito contra os estrangeiros, que sao muitos aqui. Nao sao todas as pessoas, mas existe. Em breve vou abordar esse assunto no blog...

12 comentários:

Mara disse...

Apos morar fora por quase 12 anos concordo plenamente. Tambem acho um absurdo os brasileiros nao darem valor no proprio servico, ex. qdo dou gorjeta para manicure em SP, ouco sempre 'nao precisa' .... e quase me dao o $$ de volta...

Ricardo disse...

Olha verinha tem razão com relação as discriminações aqui no Brasil
mas não se esqueça que os aborigines australianos foram massacrados pelos colonizadores australianos,e ainda tem racistas de boca fechada ai!!
ou seja!
Não existe lugar perfeito!
mas devemos aprender amar ao proximo como a nós mesmos
isto é o que vale
estou mandando um link
comprovando o que falo
bju
http://pagina-um.blogspot.com/2009/06/australia-aborigene-na-australia-sofreu.html
Pax et bono

Anônimo disse...

Oi Vera, concordo na maioria com o que vc falou, mas sabe nao havia pensado ainda sobre a questao da manicure, vc esta totalmente certa, lembrei das manicures por quem passei, e realmente nenhuma fazia o trabalho por simples prazer. Abracos Carol

José Renato e Clarisse disse...

Oi Verinha,
Adorei o seu blog e tambem passo a cada dia por essa "reprogramacao" aqui na Australia. Depois de 2 anos em Sydney e recomecando agora em Adelaide posso dizer que respeito muito mais as pessoas, independente do emprego que teem.
Um beijao e Feliz Ano Novo!
Clarisse

José Renato e Clarisse disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
**Adriana** disse...

Muito bom seu post Verinha! Posso dizer que quando cheguei no Rio (de Porto Alegre) também senti essa desigualdade social mais aflorada em relação ao Sul, isso é muito triste, mas como você disse já é cultural...
Beijos, Adri

Sonia disse...

Gostei tanto que peço autorização para repassar o texto pois fala em especial das manicures...
Beijos,

Tritone disse...

Eu sempre disse que os piores esnobes no mundo vivem nos países mais pobres (e principalmente na América Latina), já que o classismo é muito mais extremo.

Verinha disse...

Oi Tritone, talvez vc tenha razão e a maioria desse tipo de "esnobe"(considerando-se que existam vários tipos de "esnobismos") esteja sim concentrada nos países pobres, mas não sei se seria principalmente na América Latina, já que os países mais pobres do mundo não estão na região (excluindo o Haiti, que se compara aos países africanos).

Na Índia, por exemplo, a desigualdade, por incrível que pareça, é maior que no Brasil, e pelo que sei as classes nem se misturam e o que vc chama de "esnobismo" já é institucionalizado através do sistemas de castas, onde casais de diferentes classes sociais são até proibidos de namorar. Mas não posso falar muito, pois nunca vivi em outros países que não a Australia e o Brasil...

Mas aqui na Austrália existe sim, como o Ricardo falou, um preconceito enorme contra os aborígenes. Assim como em vários países desenvolvidos existe um enorme preconceito contra os estrangeiros. Realmente, não existe lugar perfeito mesmo!

Aliás, muito bom ver esses comentários todos, e mostra como as pessoas adoram uma discussão mais profunda (eu as vezes tenho um pouco de receio de colocar a minha opinião aqui... mas vou escrever mais artigos como esse a partir de agora!).

Pessoal, abraços e obrigada por visitar e comentar no blog.

Verinha

Sefirah disse...

Olá Verinha! Eu achei muito bom o seu post. Parabéns pelo blog!
Realmente temos muito so que aprender culturalmente em países como a Austrália!=)
Vou para aí pela primeira vez em 01/03. Ficarei em Perth.

Paulo Victor disse...

ótimo post, mas sempre me fica a dúvida referente ao racismo, que aqui no Brasil apesar da diversidade cultural e não se tratar de minorias (quantitativas) mas sim minorias por oportunidades. Pela própria história escravagista e colonial. Como a população na Austrália é ~90% de calcacianos(brancos), gostaria de saber se há preconceito ou racismo contra pessoas estrangeiras de outras etimologias em especial os afrodescendentes. vi machetes de notícias de algums casos ai na Austrélia sobre o assunto e fiquei horrorizado!

Paulo Victor disse...

Esqueci de perguntar no post acima, se estrangeiros qualificados são mais aceitos na austrália. Prinicpalmente em áreas que gerem demanda como a área de T.I. Sei que países desenvolvidos tem políticas de restringir imigrantes de países subdesenvolvidos e emergentes. Não se trata de dinheiro mas de vivenciar aventuras mesmo que um curto período.
Em resumo você sabe dizer qual a política adotada para os imigrantes, ou melhor, qual perfil de imigrante é mais aceito na Austrália. Estou fazendo muitas pesquisas mas neste caso seria interessante alguém que vivencie a situação.
Obrigado desde já.